A cada dia me surpreendo com a falta de limites para a torpeza humana. Existe corrupção até na fila para transplante de órgãos.
No entanto, após alguns comentários aqui no blogue, resolvi fazer algumas obseervações neste post, e peço aos aleitores que leiam os comentários. Pelo que se leu da entrevista do parente de Arraes, recebedor do fígado, ele tinha condições e fretou um avião para buscar o órgão em Minas. Não fosse assim, o fígado teria ficado inutilizado. Talvez os médicos acusados não estejam errados. Que tal ouvir, com rapidez, porque eles estão em cana, o CRM e o CFM, e dar-lhes liberdade provisória, como se fez com Dantas e tantos outros? Olhem que não sou defensor dos médicos, quer dizer, dos maus médicos, até estou processando quatro por omissão de socorro, no CFM e na Justiça criminal.
Policiais federais da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários deflagraram nesta madrugada a Operação Fura-Fila, destinada a cumprir Mandados de Prisão e de Busca e Apreensão, expedidos pela 3ª Vara Federal Criminal. A operação é resultado de investigações sobre profissionais que promoviam esquema criminoso para beneficiar pacientes de transplantes em detrimento de outros que aguardavam na fila única.
Além da "furada de fila", também abrangia condutas ilícitas tais como tráfico de influência, estelionato e locupletamento financeiro, dentre outras, inclusive causando prejuízo ao erário público, uma vez que alguns pacientes eram assistidos na rede pública, custeados pelo SUS e posteriormente eram transplantados em clínicas particulares.
A fila é do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio, e dois médicos da instituição estão sendo investigados.
A Polícia Federal cumpre mandado de busca e apreensão na casa do médico Joaquim Ribeiro Filho, ex-coordenador do Riotransplante, e ex-chefe da equipe de transplantes de fígado do Fundão, da UFRJ. Um dos beneficiários seria Carlos Augusto de Alencar Arraes, filho do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, já falecido.
Carlos teria recebido um órgão proveniente de Minas Gerais em julho do ano passado quando ocupava a 65º posição na fila de transplantes. Ele teria sido operado por Joaquim na clínica São Vicente, na Gávea - onde o médico coordena a equipe de transplantes. A operação analisou operações entre os anos de 2003 e 2008. Joaquim Ribeiro Filho, que foi coordenador da Rio Transplantes, foi preso em sua residência. O preço para passar à frente nas filas de transplantes chegava a R$ 250 mil. O esquema funcionava assim: os mercadores de fígados colocavam na fila pacientes clinicamente inviáveis, e desviavam, então, os órgãos para quem lhes pagava, porque a incompatibilidade do primeiro na fila permitia aos médicos resolver quem seria o próximo. Quer dizer: o sistema foi feito mesmo para ser fraudado. Por que não a obrigatoriedade de se passar o órgão ao próximo da fila? Joaquim Ribeiro Filho e mais os médicos Eduardo de Souza Martins Fernandes, Giuliano Ancelmo Bento, João Ricardo Ribas e Samanta Teixeira Basto, supostos integrantes do esquema foram denunciados à Justiça por...peculato, já que os órgãos em processo de doação são considerados bens do Estado. Coisa nenhuma! Trata-se de crime hediondo, tráfico de órgãos, isto sim. Vamos ver o que o CRM/RJ irá fazer. Evidentemente, terá de abrir uma sindicância. Se comprovada a culpa dos médicos, cabe cassar seus registros profissionais.
Ribeiro Filho, foi nomeado pelo então secretário estadual de Saúde do Rio, Gilson Cantarino, por sinal, preso na operação Pecado Capital que desarticulou uma quadrilha que desviava verbas da Secretaria Estadual de Saúde para ONGs.
OPERAÇÃO FURA-FILA
ResponderExcluirNo momento em que nos assumimos formadores de opinião, no mínimo devemos prezar pela idoneidade de nossas informações, assim como o compromisso com a verdade, em sua totalidade. Para isso, associo alguns dados relevantes e de acesso público.
Nos últimos anos, o país vem apresentando desenvolvimento crescente no setor transplante. No ano de 2005, foram realizados 15.527 transplantes de órgãos e tecidos. Esse número é 18,3% maior que em 2003, quando ocorreram 13.131 procedimentos, e 36,6% maior em relação a 2002, com 11.365 procedimentos de transplantes.
Este crescimento é conseqüência da conscientização da população brasileira, da atuação competente de equipes e instituições autorizadas pelo Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde e da regulação do SNT fundamentada na legislação vigente.
A lista de espera no Rio de Janeiro hoje, por um transplante de fígado, inclui 1.165 pacientes ativos, ou seja, ainda não transplantados.
Como funcionam as Centrais de Transplantes:
1. O receptor preenche uma ficha e faz exames para determinar suas características sangüíneas, da estatura física e antigênicas (o caso dos rins);
2. Os dados são organizados em um programa de computador. A ordem cronológica é usada principalmente como critério de desempate;
3. Quando aparece um órgão, ele é submetido a exames e os resultados são enviados para o computador;
4. O programa faz o cruzamento entre os dados de doador e receptor e apresenta dez opções mais compatíveis com o órgão;
5. Os dez pacientes não são identificados pelo nome para evitar favorecimento. Só suas iniciais e números são mostrados. Nesta etapa, todos os profissionais da central têm acesso ao cadastro;
6. O laboratório refaz vários exames e realiza outros novos com material armazenado desse receptor. Nesse momento, o receptor ainda não é comunicado;
7. A nova bateria de exames aponta o receptor mais compatível. Nessa etapa, o acesso ao cadastro fica restrito à chefia da central;
8. O médico do receptor é contatado para responder sobre o estado de saúde do receptor. Se ele estiver em boas condições, é o candidato a receber o novo órgão. Se não estiver bem de saúde, o processo recomeça;
9. O receptor é contatado e decide se deseja o transplante e em que hospital fará a cirurgia.
Ou seja, todo o processo é informatizado, e livre de favorecimento, visto os nomes serem preservados até a última etapa. O médico, até esta, sequer está ciente de qual será o próximo paciente a ser transplantado. Muitas vezes, realmente chega “a vez” do paciente, entretanto o mesmo encontra-se debilitado em demasia para se submeter a uma cirurgia de grande porte e risco, está fora da cidade ou até mesmo não deseja receber aquele determinado órgão. Isto porque é dado ao paciente o poder de questionar a “saúde” do órgão que lhe está sendo oferecido e optar por aguardar um pouco mais por outro que lhe pareça mais conveniente, se assim desejar.
Saúde do órgão leia-se, condições em que o mesmo se encontra. Isto é, atualmente, tem-se usado o termo “fígado marginal” para designar aquele fígado que é viável somente para um paciente em estado terminal, que se não receber um transplante, irá a óbito em curto espaço de tempo. Este tipo de fígado, por exemplo, não é colocado em um paciente com chances reais de se beneficiar de um transplante em longo prazo, a não ser é claro que o paciente deseje, visto ser a sua autonomia preponderante.
Outro fator de suma importância a ser citado, é o tempo de isquemia do órgão. Tudo deve ser muito rápido, pois o tempo entre retirar o órgão (captação) e transplantar é mínimo. Por isso, fígados e fígados e muitos outros órgãos têm sido desperdiçados, literalmente jogados no balde.
No momento em que o paciente decide e aceita ser transplantado, lhe é dado opção de escolha do local onde deseja ser operado. Isto não acontece no caso de um paciente SUS, que realmente não tem opção de local, embora a equipe seja a mesma, com os mesmos profissionais qualificados, de alva idoneidade e portadores de inscrição no Conselho médico local.
E, a caráter de esclarecimento aos colegas não médicos, quando um paciente é atendido em caráter particular, conscientemente ele arca com os custos do procedimento – neste caso o transplante - necessariamente paga a Casa de Saúde, assim como os honorários médicos e anestésicos da equipe que está prestando o serviço. Não existe vou pagar o médico “por fora” e o restante o SUS faz. Da mesma forma que não existe vou fazer os exames pelo SUS para depois ser operado pelo meu médico particular. Até porque quem tem a condição de fazer particular jamais irá dormir em uma fila de posto de saúde para pegar uma senha, para esperar ser chamado, para esperar, esperar e esperar... Isto não é ilícito a quem possui essa condição, tampouco é demérito ao cidadão financeiramente menos favorecido e que realmente necessita do SUS.
“A saúde é um dever do estado e um direito de todos” – Premissa básica do SUS. Mas, será que esta está sendo cumprida? E, se não está, e por ser uma lei, onde está o responsável? Preso inicialmente na Polícia Federal (Polinter) e em seguida em Bangu 8, dividindo a cela com o Salvatore Catiola, como Dr. Joaquim? Certamente não. Fica o questionamento.
Anexo a seguir uma entrevista do paciente Carlos Augusto Arraes.
"Operação Fura-Fila: empresário diz que não pagou por fígado”
Monique Cardoso, Jornal do Brasil - [21:53] - 02/08/2008
RIO - Operado por médico preso, Arraes nega ter furado a fila.
Com indignação e tristeza. Assim o empresário Carlos Augusto Arraes disse ver a prisão do médico Joaquim Ribeiro Filho, que realizou seu transplante de fígado em 18 de julho de 2007. Filho do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005), Carlos Augusto afirmou ontem que não pagou pelo órgão, nem furou a fila.
Acompanhado dos irmãos José Augusto e Guel Arraes, cineasta e diretor de TV, o empresário reiterou que O FÍGADO SERIA PERDIDO POR FALTA DE CONDIÇÕES DE LOGÍSTICA POR PARTE DO SISTEMA NACIONAL DE TRANSPLANTE e explicou como sua família providenciou o transporte do órgão de Minas Gerais para o Rio em um avião particular.
O empresário, portador de hepatite C, morreria em seis meses se não fosse operado.
– GANHAMOS NA JUSTIÇA UMA LIMINAR (expedida por um juiz de Pernambuco) que determinava a urgência do transplante, mas não foi preciso utilizá-la. No mesmo dia, O SISTEMA NACIONAL DE TRANSPLANTES INFORMOU QUE HAVIA UM ÓRGÃO DISPONÍVEL, MAS QUE NÃO TINHA MEIOS DE BUSCÁ-LO por causa do acidente aéreo da TAM. O que o doutor Joaquim fez foi informar que tinha um paciente com recursos para realizar o transporte – contou.
O médico Joaquim Ribeiro Filho está preso em Bangu 8 desde a última quarta-feira, acusado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal de venda de órgãos e de não respeitar a fila para transplante.
Carlos Augusto informou que pagou R$ 90 mil em cheque, mediante recibo, pelos honorários do médico e de toda a sua equipe e que os custos da internação, estimados em R$ 120 mil, foram pagos por seu plano de saúde.
Bn,
ResponderExcluirObrigado pelo comentário e pela explanação sobre o sistema de transplantes. De fato, a quantidade tem crescido. Se o Arraes tinha condições de bancar um avião para buscar o fígado, e do contrário ele se perderia, porque o tempo máximo de espera é de 4 horas, melhor que o tenha feito.
É uma logística complicadíssima, onde é fácil encontrar motivos para incriminar alguém.
No caso do médico carioca, não há problema algum em ele operar em clínica particular, cobrando honorários.
Não se vc sabe, mas 4 médicos paulistas estão sendo processados por homicídio, sob a alegação de que usaram um fígado em más condições em uma paciente. Um deles é um dos, se não o maior, especialista na área.
É complicadíssimo, porque a promotoria, leiga no assunto, analisa a denúncia, faz o inquérito, apresenta ao juiz, que não entende do assunto, e o sujeito vira réu.
Um abraço,
Exato Mônica. É triste perceber que atualmente muitas brigas políticas acontecem, e os desfavorecidos só permanecem ainda mais desassistidos.
ResponderExcluirA equipe do transplante recebe uma bolsa mensal de R$ 1500,oo para cada integrante, e teoricamente, deveria receber um extra a cada transplante. O médico "ganha" em torno de 1mil e poucos reais, e os anestesistas aproximadamente 600 reais por transplante. A captação (retirada) do órgão não cobre anestesista, pode?!
Um absurdo, visto ser o que um cirurgião recebe para operar uma hérnia, por ex, que é uma cirurgia praticamente sem riscos, com duração de aproximadamente 1h. Já ao anestesista, isso ele recebe para retirada de um névos (sinal)com sedação venosa e local.
Um ultraje se for ver que a equipe em questão fica de sobreaviso 24h/dia, 30dias/mes. Com um tempo de isquemia máximo em 8horas, realmente, vc abre mão da sua vida em prol do doente. E o que se recebe em troca? Atraso no pagamento, processo ético e criminal, questionamento da sua idoneidade como profissional. Além disso, a vergonha, de ter seu rosto estampado como "formador de quadrilha". Esta equipe, por exemplo, ainda não recebeu os últimos 57 transplantes feitos pelo SUS... E sequer parou de transplantar. Complicado? E muito... Justiça? Espero que seja feita, seja ela qual for, desde que realmente seja justa.
O próprio Dr. Camargo (chefe dos transplantes em Porto Alegre - RS) se posicionou com indignação, visto também concordar com a fragilidade do sistema em proteger, mas não em acusar. Segundo ele, é impossível furar a fila, visto estarem muitas pessoas envolvidas, seria praticamente surreal se esta proeza fosse conseguida. E levantou ainda um sábio questiomento... como ficará a credibilidade do sistema junto ao leigo? Sim, pq se acreditarmos que os fígados de nossos familiares estão sendo de fato "leiloados" não desejaremos a doação, e aí sim, está instalado o caos. Deixar somente o hospital de Bonsucesso credenciado? Engraçado, eles têm repetidos transplantes inter-vivo (particulares), na mesma Clínica São Vicente da Gávea.
Figados desperdiçados - não transplantados, equipe com seu direito para transplantar
cassado... Dr. Joaquim em Bangu 8 (é, na cela de Salvatore Catiola!), Dr. Edurdo seu cirurgião assistente indiciado por crime de peculato e ainda com provável mandado de prisão preventiva a ser expedido nos próximos dias. Giuliano, cirurgião recém formado, responsável pela parte "disgusting" - não paga que é a captação, tudo visando um lugar ao sol... Certamente o almejo deste quase garoto não era o de ver o sol nascer quadrado!
Boa noite, e vamos agradecer a Deus, visto que todos temos problemas, mas não dessa monta.
Abraços, e que a Justiça seja feita em sua totalidade.
BN