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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Iolanda, uma vigarista cínica, cruel e chinfrim


Ex-presidente cometeu crime grave ao criar e-mail falso e vazar mandados de prisão

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo


17 Maio 2017



Sete fatos negam a biografia de estadista ilibada e avó inocente da ex-presidente Dilma Rousseff.
1) A pretensa heroína da democracia – Dilma jacta-se de que arriscou a vida, foi presa e torturada na ditadura militar lutando pela democracia. De fato, ela militou num grupo armado que combateu a ditadura, pôs a vida em risco e foi torturada, mas o objetivo de tais grupos não era democrático. Seus planos consistiam em substituir uma ditadura militar de direita por outra, comunista. Isso não justifica os métodos da ditadura, mas expõe uma farsa que convém desmascarar. O jornalista Luiz Cláudio Cunha apurou que, de fato, Dilma foi torturada e pelo menos um oficial do Exército foi acusado de tê-la seviciado, mas isso não a torna mártir da democracia, Aliás, ela nunca exigiu na Justiça punição para esse agressor.
2) Sua importância nos grupos armados – Durante suas campanhas eleitorais, foi acusada pela direita ignorante e de má-fé de haver participado pessoalmente de assaltos, como ao cofre herdado por Ana Caprioli, amante de Ademar de Barros, celebrizada como “doutor Rui”. Não se sabe se Dilma participou de ações armadas. Mas o fato é que ela nunca foi relacionada em nenhuma das listas preparadas pelos chefes dos grupos armados para a troca de companheiros presos por sequestrados. Isso em nada deslustra sua biografia de militante nem reduz a importância dos crimes por ela cometidos, mas mostra que foi mera tarefeira, sem maior relevância, em todos os grupos de que participou. Na luta armada talvez ela só se tenha destacado pela profusão de codinomes que usou: Estela, Vanda, Patrícia e Luíza. Manteve esse gosto pela falsidade ideológica pela vida pública afora, até mesmo durante e após sua passagem pela Presidência.
3) A falsificação do currículo acadêmico – O repórter Luiz Maklouf de Carvalho revelou, em 2009, que o currículo Lattes de Dilma continha fraudes: nele anotou que era master of science e doutoranda em Economia pela Universidade de Campinas (Unicamp). Maklouf apurou que ela começou, mas nunca concluiu o mestrado e também nunca deu início ao doutorado. O professor Ildo Sauer, da USP, ficou tão impressionado com o tal currículo que contou a amigos, por e-mail, tê-la convidado para participar da mesa na defesa de tese de um orientando dele. Ela respondeu com a má-criação de hábito: “Não tenho tempo para cuidar desse tipo de baboseiras”. Não é mesmo uma fofa?
4) A farsa da gerentona implacável – Analfabeto funcional e completamente jejuno em matérias técnicas ou de administração, Lula desprezou currículos respeitáveis de petistas competentes, como o citado Ildo Sauer e o físico Luiz Pinguelli Rosa, que foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Impressionado com a assessora que sempre sacava dados de um laptop, que nunca largava, nomeou-a ministra de Minas e Energia, em vez de um deles. Sauer foi diretor de Gás e Energia da Petrobrás e é o único ex-dirigente da estatal nas gestões do PT que não foi acusado de ter participado da roubalheira. Pinguelli presidiu a Eletrobrás. Ela passou, impávida, pela transformação da petroleira em fornecedora de lama moral e destruiu o sistema elétrico no Brasil. Os especialistas não resistiram ao convívio com seu estilo grosseiro: perderam os cargos subalternos e a possibilidade de avisar ao chefe sobre os desmandos que levaram à descoberta do enorme escândalo de corrupção.
5) O fatiamento da Constituição em seu proveito – Em 2016, os então presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, rasuraram o artigo 52 da Constituição para lhe garantirem o direito de ser merendeira de escola, o que, aliás, seria arriscado, pois, conforme se revelaria depois, ela talvez fosse até capaz de envenenar a merenda.
6) O estelionato eleitoral – Em suas campanhas eleitorais para a Presidência, em 2010 e 2014, as únicas que disputou na vida, ela ludibriou os eleitores, sob a batuta do marqueteiro João Santana, com a produção de ficção milionária, recheada de mentiras e calúnias contra adversários, bancada por propinas de empreiteiras de obras públicas, não apenas com seu conhecimento, mas também com sua intervenção. Em delação premiada, João e Mônica contaram que, quando o pagamento via caixa 2 atrasava, ela, assim como Lula o fizera antes, cobrava pessoal e duramente. Além das delações, documentos sustentam a acusação, na ação do PSDB contra a reeleição da chapa dela com Temer de vice, com farta exposição de laranjas e abusivo uso de notas frias para forjar serviços não prestados. Será uma ignomínia se o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral deixar tais crimes impunes.
7) Clandestina em palácio – Durante o processo do impeachment, ela execrou delações, delatores (“desprezíveis”) e vazamentos seletivos. Mas, segundo Mônica, beneficiou-se de vazamentos feitos por seu ministro da Justiça e advogado no impeachment, José Eduardo Martins Cardozo. Vangloriava-se de ser honesta e nunca ter praticado atos ilícitos nem ter conta no exterior. Na delação, Mônica desmentiu-a, ao contar que Dilma usou o expediente chinfrim de pré-adolescente de usar e-mail falso e comunicar-se por rascunhos. Batizou o e-mail de Iolanda, referindo-se à mulher do ex-presidente e marechal Costa e Silva, somado a 2606, relativo a 26 de junho, data em que seus “irmãos em armas” executaram com crueldade, no portão do quartel-general do II do Exército, o recruta Mário Kozel Filho, que nunca torturou ninguém nem participou de nada reprovável. Foi morto por acaso, como sói ocorrer em atentados terroristas. Em casa, em Porto Alegre, deposta, ludibria quem lhe telefona dizendo ser Janete, estratégia usada por vigaristas que alugam terrenos na Lua e fogem de credores.
É injusto definir Iolanda/Janete como vigarista cínica, cruel e chinfrim? E dizer o que de Lula, que no-la impingiu?
*Jornalista, poeta e escritor

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Quando o tempo não passa


Roberto DaMatta


Os tempos não passam quando neles ocorrem eventos desafiadores para as estruturas vigentes


Como certas doenças, existem tempos que não passam. São intermináveis como esse nosso 2016 - certamente um clássico dessa categoria, próximo do que foi 1968, celebrizado por Zuenir Ventura num belo livro.
Os tempos não passam quando neles ocorrem eventos desafiadores para as estruturas vigentes. Em 1968 - vivido por mim em Cambridge, Massachusetts -, as revoltas estudantis, o assassinato de Luther King e Robert Kennedy, a luta contra o racismo e a guerra do Vietnã desafiavam a democracia americana. Num Brasil arrolhado pela ditadura, fazia-se o que era possível.
Quando os fatos não cabem nas gavetas da história, eles viram dramas. 
Não passam. 
Tal como 1968, esse 2016 explicita os enganos de um Brasil ultraestatizado, radicalizado e incestuosamente assaltado, mas com um sistema legal ainda vivo e capaz de cometer a heresia de enjaular poderosos.
Todo fato chocante vira drama porque perde transitoriedade. Torna-se indigesto, impedindo o trânsito de um tempo que concebemos como passando, como a paisagem do trem que levou Hans Castorp à Montanha Mágica. Numa cosmologia que estratifica as épocas - Idade das Trevas e da Luz -, a passagem do tempo serve como uma prova de evolução. Vamos sempre do atraso para o progresso. 
Nesse quadro, tempos que não passam seriam épocas não resolvidas. Como portas abertas, eles deixam que passado se misture com presente e ambos detenham a esperança de um futuro. Como dizia Thomas Mann, “onde não há transitoriedade - princípio e fim, nascimento e morte, não há tempo”. Mas como fechar ou acabar um ano se o tempo é como a água de um imenso mar o qual nos é dado a conhecer por um instante? Nele navegamos e nele sucumbimos. Dividi-lo, diz Mann, é arbitrário. É como tentar fatiar água, como temos feito com as leis neste Brasil de 2016.
Sem diques, viramos náufragos do nosso legalismo, do nosso formalismo e do nosso cuidado em não fechar etapas. Aos fechamentos, preferimos os acordos e as harmonizações cujo centro são cargos apossados por pessoas e não pessoas a serviço dos cargos, honrando-os e não se utilizando deles para projetos particulares, ou ideológicos. Sem um mínimo de sincronia entre pessoas e cargos, não há como estancar poderes e fechar temporalidades. Pois, se as leis têm dia e ano, as amizades e as considerações são variáveis, flexíveis e perpétuas. 
*
Numa antiga Harvard, Richard Moneygrand fazia uma palestra sobre os valores políticos brasileiros. Em vez de citar os usuais suspeitos - Maquiavel, Marx, Hobbes, Locke, Habermas... -, falou na teoria da oferenda e da reciprocidade de Marcel Mauss. Abriu espaço para discorrer sobre uma história social que lhe parecia singular porque nela havia um conflito reprimido entre “laços de lealdade devido a pessoas”, os famosos “elos de favor, contrafavor e amizade” e leis universais impessoais juridicamente válidas para todos. O Brasil, dizia o conferencista, constituía um caso no qual a nação (ou o País) era administrado por meio de regras de caráter universal, mas a sociedade continuava a ser motivada por simpatias particularistas. O problema era que poucos viam o poder das normas sociais. Disso resultava uma instabilidade permanente como, de resto, ocorria no mundo latino. 
Essa palestra inspirou Carnavais, Malandros e Heróis, dando-me a motivação para sugerir que o “Você sabe com quem está falando?” era uma reivindicação (ou uma eclosão) particularista de cunho aristocrático em situações de igualdade. Eis um evento saudoso da estrutura que o modelava. Nele, o cidadão sujeito da lei geral, aparecia subitamente como alguém muito bem relacionado e assim livre para descumpri-la. As leis se aplicam a todos, mas dependem de quem está falando... 
O delito importa, mas ele está amarrado a quem o comete. Todo particularismo reage ou se acultura diante do universalismo em todo lugar. Daí os dilemas do liberalismo, que a todo momento são forçados a ajustar leis impessoais a novos momentos históricos, algo que temos sido incapazes de realizar. No Brasil, inventamos o jeitinho (estudado por Livia Barbosa num livro clássico) e o sabe com quem está falando. Ambos reativam particularismos num mundo legalmente construído por indivíduos cidadãos sem idade, sexo, cor ou família.
Nessa mesma ocasião, cunhei a expressão “sociedade relacional” para definir sistemas nos quais havia uma incerteza básica entre julgar individualmente ou fazê-lo levando em conta seus cargos e relações.
Aí estava o centro, o ponto de fuga de quem virava “figura” numa sociedade marcada pela subordinação. Hoje, graças à Lava Jato, sabemos que o capital político relacional se transformou também num rico empreendimento financeiro. Dizem que é o capital que tudo controla, mas, na verdade, são esses elos hierárquicos que têm domesticado e englobado o capitalismo, dando-lhe uma feição compradesca e populista.
*
Ao fim dessa palestra, Moneygrand disse algo que jamais esqueci: “Se você quiser compreender o poder no Brasil não estude partidos, estude pessoas!”.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O cachimbo velho e a fraqueza de Temer



Nossas instituições são fortes, fraco é o presidente quando dele se exige muita força


José Nêumanne


A expressão latina lapsus linguae é traduzida por ato falho, mas usada de maneira tão rotineira entre nós que se tornou verbete do Dicionário Houaiss. Este a define como “erro acidental ao falar, que altera o sentido que queria se dar à frase e que é interpretado (por influência da psicanálise) como expressão de pensamentos reprimidos”. Catalogada por Sigmund Freud no clássico texto de Psicopatologia da Vida Cotidiana, ela pode explicar o uso do verbo acordar pelo presidente Michel Temer na entrevista coletiva no Palácio do Planalto no domingo passado. Nela anunciou a extinção, antes da aplicação, da anistia a qualquer crime vinculado a doações eleitorais, declaradas ou não, resultante de uma autêntica conspiração de ratos no Congresso.

Habituado ao uso castiço do vernáculo, o presidente da República usou o termo acordar no primeiro significado que lhe atribui o citado dicionário, concordar, ao justificar o comunicado a três bocas da decisão de abortar o acordão espúrio para aprovar o perdão injustificável em emenda sem autor nem número. Ao lado dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia, o chefe do Executivo anunciou que o trio obedecia à “voz das ruas”. Ou seja, os três foram acordados pelo clamor do povo, que os acordou, no sentido do segundo verbete do verbo: “fazer sair ou sair do sono ou da sonolência”. E ainda mais exatamente: “devolver ou recobrar os sentidos”. Esse despertar da letargia cívica pode ser explicado pela indignação popular provocada pelo comportamento reprovável de Temer no lamentável episódio palaciano que forçou o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero a deixar o governo.
Estranho no ninho íntimo do palácio e do “parlamentério” composto para vencer no Congresso, Calero saiu atirando com uma metralhadora giratória que lhe foi presenteada pelos três mais insignes inquilinos do Palácio do Planalto: o até então secretário de Governo, Geddel Vieira Lima, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e Michel Temer em pessoa.
Denunciado e poupado no escândalo dos anões do Orçamento, em que parlamentares manipulavam emendas para desviar verbas orçamentárias para entidades sociais fantasmas ou com a ajuda de empreiteiras, Geddel foi agora acusado por Calero de ter praticado concussão e tráfico de influência. O ex-secretário de Governo confessou, candidamente, que apenas “ponderou” que o edifício La Vue na Ladeira da Barra, no centro histórico de Salvador, deveria ser erguido para gerar empregos e garantir estabilidade jurídica. A imagem do espigão pornográfico agredindo a paisagem histórica para dar a seus moradores uma vista esplêndida da Baía de Todos os Santos tornou o pretexto, no mínimo, cínico.
Para socorrer Geddel acudiram 27 líderes de bancadas governistas, conduzidos pelo líder do governo na Câmara, André “Cunha” Moura. O presidente do Senado decretou o encerramento do caso na terça-feira. Idêntica pressa levou o da Câmara a afirmar: “Nós precisamos que o ministro Geddel continue no governo”. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu seu palpite infeliz, alertando que o Brasil precisa que Temer governe até 2018, data da próxima eleição presidencial. Com isso bateu o recorde de intromissão imprópria no episódio: o País sobreviveu 516 anos sem Temer no poder e nossa História não terá fim em dois anos.
Mas o ministro em queda dispunha de balas no pente e disparou-as, contando que Padilha o aconselhou a procurar a advogada-geral da União para resolver o impasse com o colega. E acusou Temer de se acumpliciar ao subordinado e amigo baiano e ao fiel anspeçada gaú-cho por assediar o diplomata, noviço “nessas coisas que a política tem”. Além de não ter demitido Geddel, o presidente espalhou pistas no local do crime ao permitir o tráfego implícito da anistia à delinquência de políticos por seu líder, o deputado André Moura.
As consequências de seu erro são imprevisíveis. Brasileiros decentes exigiam do chefe, ciente dos próprios encontros com a vítima, que, logo no início do caso, demitisse Geddel e mantivesse Calero, por mais indigesta que lhe parecesse a atitude. Ao não fazê-lo, talvez por ter a boca entortada pelo vício de fumar o cachimbo da velha política da Primeira República – cujo lema, até hoje vigente no Brasil oficial (chamado por Machado de Assis de “burlesco” em 1861), era “aos amigos, tudo; aos inimigos o rigor da lei” –, Temer literalmente se perdeu. Restou-lhe convocar por “condução coercitiva”, conforme Vera Magalhães Estado, 28/11, A6), a coletiva de domingo, em que anunciou o tal pacto com os presidentes do Congresso para salvar a face de todos por uns dias perante o País real, que o Bruxo do Cosme Velho, na crítica ao Ministério da Fazenda do Segundo Império, disse elevar-lhe “os melhores instintos”.
Temer ajudou a eleger Dilma em dois pleitos e por isso não é, como pretende e gostaria de ser, completamente isento dos erros lulodilmistas que levaram o Brasil à maior crise moral, política e econômica da História. Mas é o que nos resta para – com a ajuda de uma equipe econômica competente e o mínimo de atrapalho de seu “parlamentério” – nos retirar desta encalacrada. O diabo é que o próprio presidente deu um exemplo infeliz e impróprio de que pode atrapalhar muito. Anteontem, a uma plateia de empresários proferiu o seguinte disparate: “Qualquer fatozinho abala as instituições”. 
Nada há de certo, lúcido ou construtivo na frase. Se ele se referia ao episódio envolvendo Calero e Geddel, a única justificativa para o uso do diminutivo é a dimensão dos dois ex-ministros, de Padilha e, pelo visto, dele próprio. Para felicidade geral da Nação, as instituições democráticas mostraram força e estabilidade ao substituírem Dilma dentro das normas vigentes do Estado Democrático de Direito. Quem tem demonstrado fraqueza em momentos capitais como este é quem o diz e o governo dele.

domingo, 10 de maio de 2015

A doença do Brasil


Roberto Damatta

O Brasil é doente, diagnosticou o insuspeito ex-presidente do Uruguai, José Mujica, numa entrevista à BBC que o Globo repercutiu na sua edição do dia 24 do corrente. Para Mujica, com 80 anos e muitos quilômetros rodados na vereda política e tendo como norte a irmandade esquerdista latino-americana, a patologia nacional brasileira tem como centro o "tráfico de influência", que seria uma "tradição" do nosso sistema político.

Concordo em gênero, número e grau com Mujica.

Ele não leu o que tenho reiterado em livros e neste espaço, mas é exatamente isso que afirmo quando entendo que toda a cosmologia do Brasil se fundamenta nas relações pessoais e como essas relações são administradas. 

A lógica do dar e receber (ou do dar para receber) é o coração do "favor". Se eu te faço um favor, se eu te devo favores, esses favores nem sempre se encaixam nas divisões ideológicas e jurídicas que regem o Brasil como país. 

José Mujica discerne o problema quando acentua que conseguir a maioria parlamentar no Brasil, em nível local ou nacional, é muito difícil porque "o Brasil é um macramé". Ora, o macramé, como esclarece o dicionário, é uma colcha de retalhos. Em sociologuês, dir-se-ia - como elaborei num livro publicado em 1979 (Carnavais, Malandros e Heróis) - que é um conjunto de elos imbricados, constituídos a partir de simpatias e antipatias pessoas, num palco demarcado por papéis institucionais. Se o macramé fala de liames pessoais, o lado legal do sistema demanda que ele se dobre ou venha a romper-se pelos deveres impostos pelos papéis institucionais. Um presidente de estatal não pode nomear somente companheiros de partido. Ele é obrigado, pelo papel que ocupa, a escolher pelo mérito. Entre esses dois impulsos ou obrigações, situa-se o que chamei de "dilema brasileiro". Um dilema vigente em todas as democracias inspiradas nos ideais universalistas de 1789.

Num nível tudo parece muito simples: gastamos muito, erramos muito mas, acima de tudo, continuamos a imaginar a centralização como a saída para todos os problemas nacionais, esquecendo a força dos velhos costumes, os quais têm o poder das velhas tecelagens, como revela Mujica. 

Tanto no plano econômico, quanto no político, as regras são claras e formais. Mas o mundo das "influências" advindas da casa, uma ética da reciprocidade interfere com a do estado e distorce o chamado "espírito do capitalismo". Nessa tecelagem, a empresa não visa ao lucro, mas ao emprego para os amigos e recursos para o partido.

O Brasil se diferencia da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e da América Latina porque ele não teve republicanismo e, até 1889, foi uma monarquia fundada no trabalho escravo. Na transição entre esses regimes, os conflitos foram reprimidos precisamente pela ética dos elos pessoais entre monarquistas, escravistas, republicanos e protocapitalistas, que jamais abandonaram seus hábitos aristocráticos. Todos nós temos todas as coragens, menos a de negar o pedido de um amigo, conforme dizia Oliveira Vianna num ensaio de 1923.

Neste mundo marcado pela transparência eletrônica, esse hóspede não convidado pelo nosso mulatismo cultural e avesso ao confronto, as contradições surgem claramente no laço entre riqueza e poder. Entre as demandas de quem gerencia a economia (cujas regras são digitais: não posso gastar mais do que tenho!); e as da política, as quais incluem não apenas os jeitinhos ou "pedaladas", mas, sobretudo, as relações pessoais mescladas ou não de ideologia, as quais são infinitas. 

Mujica aponta que confundimos governar com mandar. E adverte: não se pode misturar a vontade de ter dinheiro com política. Se fizermos isso, complementa, estamos fritos. "Quem gosta muito de dinheiro tem que ser tirado da política." A corrupção brasileira tem um sinal: ela se funda na apropriação de cargos por pessoas que, mesmo quando são eleitas debaixo de uma bandeira populista ou socialista, acabam bilionárias. É impossível resistir aos amigos, mas é muito mais difícil liquidar essas sobras aristocráticas que são, a meu ver, a marca mais forte e permanente do nosso republicanismo: cargos que impedem punição, crimes que prescrevem, responsabilidades que não são cobradas. Num certo sentido, não temos noção da tal "coisa pública" - esse conceito imprescindível para uma vida igualitária e democrática - republicana.

domingo, 1 de março de 2015

Fim de feira




José Nêumanne
Para corruptores serem punidos, Dilma tem de desautorizar Cardozo, Simão, TCU e Adams
Faltam 46 meses para o governo Dilma acabar. É tolice tentar abreviar a agonia que, tudo indica (ou melhor, nada indica que não), nos afligirá em três longas prorrogações deste nada promissor ano de dois mil e cinzas. Impeachment já ou logo, como exigem alguns, que prometem sair em bloco às ruas no dia 15, é inviável e só interessa por enquanto ao ex abandonado Luiz Inácio Lula da Silva. Este não é mais o ai-jesus de antes, mas continua sem adversários na oposição, cuja única novidade a apresentar ao público pagante são as barbas de Aécio, que deveria pô-las de molho.
Talvez venha a ser a mais longa caminhada de um pato manco na História desta República, pois a chefe do governo só conseguirá ser a líder política de que o País precisa para administrar a herança maldita que ela própria se legou se parar de mentir e mancar a cada passo. Por enquanto, o único sucesso que ela tem a apresentar ao eleitorado que a levou de volta ao trono é que este não vai vergar sob seu peso por causa de uma invejável dieta evidentemente bem-sucedida. Fora isso, o que comemorar de uma governante(a) que só não erra quando cala – lembrando aquela frase cruel de Romário sobre Pelé: “Calado, é um poeta”?
Dilma cuspiu nos direitos trabalhistas que jurou proteger; aumentou a tarifa de luz (no Sudeste, calcula-se, em 70%), que prometeu reduzir; e deixou de pagar o Pronatec, que esfregou na cara do adversário em campanha. Agora, para dar um jeito no cofre, transferiu a responsabilidade para o economista ao alcance. Joaquim Levy saiu do segundo time do candidato derrotado para assumir o que este teria de fazer se ganhasse. E deve agradecer a Deus pelos três pontos porcentuais que ela teve a mais de votos, sempre que se persigna. Cabe-lhe defender o indefensável e salvar a pele da chefona. Se tiver sucesso, será substituído por um companheiro fiel às ideias muito próprias que ela tem da economia. Se não tiver, será apontado como o substituto de Fernando Henrique na condição de bode expiatório preferencial.
Mesmo tendo um escudo para se proteger do material orgânico em que pode resultar sua tentativa de corrigir os erros do próprio passado, contudo, Dilma continua empenhada em dizer e fazer tudo errado. Produziu, por exemplo, depois da Quarta-Feira de Cinzas a piada do carnaval – que tinha tudo para ser a do voo da Beija-Flor até a Guiné Equatorial –, ao transferir a culpa da roubalheira na Petrobrás ao tucano antecessor dos três governos petistas. Agarrou-se à tábua de salvação da delação premiada do ex-gerente Pedro Barusco, que confessou ter começado a roubar discretamente em 1996 (ou 1997?). O professor passou a ser acusado pelo dilúvio universal bíblico e pela seca em que São Paulo virou sertão.
Antes de ser acusado pela traição de Calabar e pela amputação dos braços da Vênus de Milo, o sociólogo desceu das tamancas e bateu abaixo da linha de sua cintura afinada, ao compará-la com o punguista “que mete a mão no bolso da vítima, rouba e sai gritando ‘pega ladrão’!” O adversário não foi muito elegante, mas, ainda se levando em conta a eventualidade, é possível concluir que, tendo sido ministra de Energia, presidente do conselho de administração da estatal assaltada , chefe da Casa Civil e presidente no período de 12 anos em que o furto foi “sistêmico”, segundo o delator, ela poderia ter ido dormir sem essa.
A galhofa é nossa, mas sugiro que se preste mais atenção em algo mais sério que ela também disse ao voltar da mudez dos idos de Momo. Depois de ter rasgado a bandeira socialista ao garantir que não se apena empresa, para evitar desemprego, mas gente, para punir corrupção, ela deu uma guinada de 180 graus ao afirmar: “Isso não significa de maneira alguma ser conivente ou apoiar ou impedir qualquer investigação ou qualquer punição a quem quer que seja”. E completou, repetindo o lugar-comum traduzido do portunhol do aliado Collor: “Doa a quem doer”.
O noticiário dá-lhe duas boas oportunidades de provar que será coerente com o “duela a quién duela” que assumiu. Para fazê-lo terá de interromper imediatamente a tentativa canhestra de seu novo controlador-geral da União, Valdir Moisés Simão, de celebrar acordos de leniência com as empreiteiras acusadas de pagar propina a petroleiros, partidos do governo e políticos aliados para tentar evitar delação premiada de empresários presos. A proposta foi avalizada pelo advogado-geral da União, Luís Inácio (que não se perca pelo nome) Adams, outro funcionário a ela diretamente subordinado, e abençoada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), cuja composição é fiel a seu governo. É, porém, contestada pelo Ministério Público Federal, que tem todas as razões do mundo para temê-la. Pois jogaria por terra a oportunidade inédita que a presidente diz perseguir de, enfim, punir judicialmente corruptores.
Outro episódio constrangedor para ela é o das audiências do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo – um dos militantes que não riem da piada do Fernandinho primeiro bode expiatório –, aos advogados dos empreiteiros presos. Sabe-se que ele chamou de medievais nossas masmorras, mas nunca fixou um prego numa barra de sabão para mudar o fato. Agora recebe causídicos de luxo, mas não faz idêntico esforço para conseguir nas varas de execuções penais a soltura de 9 mil ex-condenados que já cumpriram pena e não saem da cela por não poderem pagar advogados que tenham acesso à agenda dele. Ou melhor: à agenda controlada pela assessora de confiança, e não a que aos pagadores de seus proventos é dado conhecer. Segundo a Folha, o que ele fez em 80 de 217 dias de trabalho desde o início da Operação Lava Jato foi mantido em segredo, o que torna Sua Excelência o primeiro ministro clandestino da história de qualquer democracia.
Só atitudes dela contra essas tentativas de melar o jogo dissiparão o clima de xepa. Segundo minha avó, “desculpa de cego é feira ruim e saco furado”.
Jornalista, poeta e escritor
(Publicado na Pág.2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 25 de fevereiro de 2015)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A pós-miséria


Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

Ontem vi na CNN uma reportagem sobre o Brasil, a propósito do crack na periferia do Rio. Nunca vi barra tão pesada da miséria brasileira, com corpos semimortos, sujeira e desespero mudo. A repórter americana estava à beira de um colapso nervoso com a degradação do País, alertando estrangeiros civilizados sobre o perigo de vir à Copa. Já andei por fundos sertões e não sou criança, mas parecia que estávamos na Nigéria, na área do Boko Haram, um daqueles lugares mortos que não fazem parte nem do mundo pobre. Ficou-me claro que aqui já vivemos uma "pós-miséria" incurável, africanizada. A miséria se aprofundou. Chocado, me sentei para escrever este artigo. Comecei a fazer reflexões 'sensatas' sobre o que fazer, na base do "precisamos" disso, "precisamos" fazer aquilo, precisamos tomar providências, etc. "Precisamos." De repente, me bateu: para quem estou falando? A quem me queixo? A quem recorrer? Minhas perguntas caem no nada. Como fazer as instituições refletirem e agirem, se a pós-miséria atinge não somente os miseráveis, mas degrada as maneiras de combatê-la? A miséria das ruas e dos desvalidos, do crack , do abandono, deriva-se da impotência das instituições e vice-versa.
São duas misérias interagindo, acopladas: a ativa (política) e a passiva (os desgraçados). Criadores e criaturas.
As manifestações de junho, milagrosas e belas, ficarão sem respostas, porque não há o que responder e como responder. Quem? Uma presidenta (sic) enjaulada no "presidencialismo de cooptação", que depende dos congressistas picaretas? Quem? O Judiciário aleijado, com leis de 100 anos atrás?
Por isso, escrevo este artigo pessimista, sim; quem achar deprimente, pare de ler. Mas tenho de continuar; não sei bem para que nem para quem. Mas, escrevo...
A brutalidade está atingindo o País de forma inédita. O subsolo das manifestações de classe média é a violência primitiva dos "lúmpens" (miseráveis inúteis) que está aparecendo. No mesmo registro das donas de casa que protestam contra a carestia ou de jovens contra a Copa, matam-se pessoas por nada, linchamentos, privadas voadoras, cadáveres cortados a peixeiras e costurados ao sol com pinos de guarda-chuva, mortos nas Pedrinhas dos Sarney, pais que matam filhos, crianças se degolando, etc.
Não adianta ficar repisando os óbvios erros desse governo, que deixarão sobras terríveis para quem vier - seja Dilma, Lula (será que ele quer?) ou a oposição. A democracia subestimada pelo PT levou a um voluntarismo medíocre que "faria" a remodelação da realidade de modo a fazê-la caber em premissas ideológicas. Seus erros são tão sólidos que chego a pensar que visam a apodrecer as instituições "burguesas" por dentro, numa espécie de "gramscianismo pela corrupção". Isso já está diagnosticado, mas os renitentes intelectuais orgânicos dirão: "O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal: os neoliberais". E assim vamos.
Estamos entrando numa pós-violência e numa pós-miséria - eis a minha tese. Há uma africanização de nossa desgraça, a ponto de ela não ser mais reversível. E não era assim. O Brasil sempre contou com a possibilidade de melhorias. Sempre vivemos o suspense e a esperança de que algo ia mudar para melhor.
Isso parece ter acabado. É possível que tenhamos caído de um "terceiro mundo" para um "quarto mundo", como já nos consideram analistas do exterior. O quarto mundo é a paralisação das possibilidades. Quem vai salvar as 300 meninas sequestradas na Nigéria, quem vai resolver o Sudão, a Líbia? E aqui? Quem vai resolver o drama brasileiro que está entrando no mesmo clube? As informações criam apenas perplexidade e medo, mas, como agir? Não há uma ideologia que dê conta do recado. E, na falta de soluções, recorrem a velhos métodos políticos já testados que falharam. No caso brasileiro, se Dilma for reeleita, o falhado "bolivarianismo" tende a aumentar.
No Brasil, vivemos com a insolubilidade e, diante dela, só temos duas hipóteses: ou a convivência com o absurdo e o desespero, tarefa dificílima até para filósofos ou, então, surgirá um autoritarismo populista carismático, quase "religioso", para manter a vida social funcionando, com os privilegiados trancados em casa ou em Miami, com a patuleia bem controlada. Resolver os problemas do País de desigualdade, ignorância, fome, é tão difícil como democratizar o Boko Haram. Não temos meios, como disse Baudrillard - "temos apenas os frágeis instrumentos dos direitos humanos".
É uma espécie de colheita; com o crescimento da população, das informações, dos desejos, todos os problemas plantados há séculos estão irrompendo ao mesmo tempo. Já tivemos uma miséria dócil, controlada, e nada se fez porque ela não ameaçava. Já usufruímos de vários séculos da estupidez popular para manter nossos privilégios. Já elegemos, "salvadores da pátria" que sempre nos ferraram desde o golpe militar da República até Getúlio, Jânio, 64, Collor, Lula. E deu em nada. Como infiltrar um espírito mais "anglo-saxônico" nesse corpo ibérico, inerte, "anestesiado e sem cirurgia"? Hoje, é tarde demais.
O que mais me grila é que não parece se tratar de um período histórico passageiro que, uma vez terminado, o País volte ao "normal". Não. É um salto para outra anormalidade sem-fim; é uma mudança de estado. Não é uma doença que passa; é uma anomalia incurável.
E aí? Perguntarão os leitores a esse pessimista bodeado? Bem... É possível que Lula volte. Será? Ele deve estar analisando as possibilidades. Como só pensa em si mesmo, se ele achar que é muita aporrinhação, desiste. Se não, ele volta. E aí, sejam bem-vindos ao Quarto Mundo!
Minha filha Juliana Jabor, antropóloga e psicanalista, escreveu outro dia: "Lula poderá se apropriar da situação, com seu carisma inabalável, para ocupar a 'função paterna' que está vaga desde o fim do seu governo. Eleito de novo, a multidão se transformará, aí sim, em 'massa'. Os 'movimentos' perderão o seu caráter de produção de subjetividades e se transformarão numa massa guiada por um líder populista". Desculpem a depressão e boa sorte…

domingo, 12 de janeiro de 2014

O 'perigo vermelho'


Arnaldo Jabor - O Estado de S. Paulo

Retiraram o corpo de João Goulart da sepultura para examiná-lo. Coisa deprimente, os legistas examinando ossos de 40 anos atrás para saber se foi envenenado. Mas havia também algo de um ritual de ressurreição encenada. Jango voltava para a turma que está no poder e que se considera vítima de 1964 até hoje. Só pensam no passado que os ‘legitima’ com nostalgia masoquista de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia, em vez de fazerem reformas no Estado paralítico e patrimonialista.
Querem continuar a ‘luta perdida’ daqueles tempos ilusórios. Eu estava lá e vi o absurdo que foi aquela tentativa de ‘revolução’ sem a mais escassa condição objetiva. Acuaram o trêmulo Jango, pois até para subversão precisavam do governo. Agora, nossos governantes continuam com as mesmas ideias de 50 anos atrás. Ou mais longe. Desde a vitória bolchevique de 1921, os termos, as ilusões são as mesmas. Aplica-se a eles a frase de Talleyrand sobre a volta dos Bourbons ao poder: "Não aprenderam nada e não esqueceram nada".
É espantosa a repetição dos erros já cometidos, sob a falácia do grande ‘teólogo’ da História, Hegel, de que as derrotas não passam de ‘contradições negativas’ que levam a novas teses. Esse pensamento justificou e justifica fracassos e massacres por um ideal racional. No PT e aliados como o PC do B há um clima de janguismo ou mesmo de ‘brizolismo’, preferência clara da Dilma.
Brizola sempre foi uma das mais virulentas e tacanhas vozes contrárias ao processo de desestatização.
Mas, além dessas mímicas brasileiras do bolchevismo, os erros que querem repetir os comunistas já praticavam na época do leninismo e stalinismo: a mesma postura, o mesmo jargão de palavras, de atitudes, de crimes justificados por mentiras ideológicas e estratégias burras. Parafraseando Marx, "um espectro ronda o Brasil: a mediocridade ideológica".
É um perigo grave que pode criar situações irreversíveis a médio prazo, levando o País a uma recessão barra-pesada em 14/15. É necessário alertar a população pensante para esse ‘perigo vermelho’ anacrônico e fácil para cooptar jovens sem cultura política. Pode jogar o Brasil numa inextrincável catástrofe econômica sem volta.
Um belo exemplo disso foi a recusa do Partido Comunista Alemão a apoiar os social-democratas nas eleições contra os nazistas, pois desde1924 Stalin já dizia que os "social-democratas eram irmãos gêmeos do fascismo".
Para eles, o ‘PSDB’ da Alemanha era mais perigoso que o nazismo. Hitler ganhou e o resto sabemos.
Esta semana li o livro clássico de William Waack Camaradas, sobre o que veio antes e depois da intentona comunista de 1935 (livro atualíssimo que devia ser reeditado), e nele fica claro que há a persistência ideológica, linguística, dogmática e paranoica no pensamento bolchevista aqui no Brasil. A visão de mundo que se entrevê na terminologia deles continua igual no linguajar e nas ações sabotadoras dos aloprados ao mensalão - o fanatismo de uma certeza. Para chegar a esse fim ideal, tudo é permitido, como disse Trotski: "A única virtude moral que temos de ter é a luta pelo comunismo". Em 4 de junho de 1918, declarou publicamente: "Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana". Deu no massacre de Kronstadt em 21.
No Brasil, a palavra "esquerda" continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma "substância" que ninguém mais sabe qual é, mas que "fortalece", enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Temos de usar "progressistas e conservadores".
Temos de parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes soluções impossíveis amarram as possíveis. Temos de encerrar reflexões dedutivas e apostar no indutivo. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, possível e até pessimista. O pensamento da velha "esquerda" tem de dar lugar a uma reflexão mais testada, mais sociológica, mais cotidiana. Weber em vez de Marx, Sergio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.
Não tem cabimento ler Marx durante 40 anos e aplicá-lo como um emplastro salvador sobre nossa realidade patrimonialista e oligárquica.
De cara, temos de assumir o fracasso do socialismo real. Quem tem peito? Como abrir mão deste dogma de fé religiosa? A palavra "socialismo" nos amarra a um "fim" obrigatório, como se tivéssemos que pegar um ônibus até o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos.
A verdade tem de ser enfrentada: infelizmente ou não, inexiste no mundo atual alternativa ao capitalismo. Isso é o óbvio. Digo e repito: uma "nova esquerda" tem de acabar com a fé e a esperança - trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.
No Brasil, temos de esquecer categorias ideológicas clássicas e alistar Freud na análise das militâncias. Levar em conta a falibilidade do humano, a mediocridade que se escondia debaixo dos bigodudos "defensores do povo", que tomaram os 100 mil cargos no Estado.
Além de "aventureirismo", "vacilações pequeno-burguesas", "obreirismo", "sectarismo", "democracia burguesa", "fins justificando meios", "luta de classes imutável" e outros caracteres leninistas temos de utilizar conceitos como narcisismo, voluntarismo, onipotência, paranoia, burrice, nas análises mentais dos "militantes imaginários".
Baudrillard profetizou há 20 anos: "O comunismo hoje desintegrado se tornou viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de desfuncionamento e da desestruturação brutal" (vide o novo eixo do mal da A. Latina).
Sem programa e incompetentes, os neobolcheviques só sabem avacalhar as instituições democráticas, com alguns picaretas sábios deitando "teoria" (Zizek e outros). Somos vítimas de um desequilíbrio psíquico. Muito mais que "de esquerda" ou "ex-heróis guerrilheiros", há muito psicopata e paranoico simplório. Esta crise não é só política - é psiquiátrica. 

domingo, 25 de agosto de 2013

Formigas na rapadura



João Ubaldo Ribeiro

Acho que todo mundo lembra o que disse num discurso o presidente Kennedy: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país". Eu estava lendo os jornais e aí me ocorreu, como já deve ter ocorrido a muitos de vocês, que nossa prática política se orienta por uma atitude oposta a essa exortação. Ou seja, queremos saber o que o Brasil pode fazer por nós, mas não alimentamos muita curiosidade sobre o que podemos fazer pelo Brasil. Isso se expressa no comportamento de nossos governantes, que não disputam nada pensando no País, mas em abocanhar ou manter o poder, aqui tão hipertrofiado, abarrotado de privilégios e odiosamente infenso ao controle dos governados.
Para que mais, a não ser desfrutar desses privilégios, não se sabe, porque não existe projeto, além da cantilena sobre justiça social, saúde para todos, educação de qualidade e outras generalidades com as quais todos concordam. Que modelo de estrutura socioeconômica queremos, que Estado queremos, que País queremos, como chegaremos lá? Que propostas concretas são oferecidas? Ninguém diz - e os programas partidários, como os próprios partidos, causam constrangimento, pela ausência de ideias e compromissos sérios. O negócio é se eleger e se abancar, depois se vê o que se pode fazer, conforme a necessidade e a serventia para a permanência no poder. Na pátria, como se falava antigamente, ninguém se mostra muito interessado.
Tudo o que se faz hoje é visando às eleições, ou seja, a continuação no poder ou ascensão a ele. Descobriram agora essa lambança das concorrências em São Paulo, que não é propriamente inédita na história nacional, e grande parte da reação parece do tipo "viu, viu? nós rouba, mas cês também rouba!". Todo mundo na vida pública rouba, o que pode não ser uma afirmação justa, mas já virou axioma na descrição de nossa realidade e um dado importante em qualquer equação política. Invoca-se o princípio da falcatrua consuetudinária. Ou seja, se é ilegal, mas costumeiro, prevalece o costume e é considerado sacanagem e falta de coleguismo fazer denúncias ou querer punições. Que outras novidades têm para nos segredar? Quem não aposta que nada vai dar em nada?
O Estado às vezes parece ter as pernas bambas. Recomeçou o dramalhão do julgamento do mensalão e muita gente não entende mais nada, a começar por esse singular minueto processual, através do qual o Supremo Tribunal Federal vira penúltima instância, dia sim, dia não. Todo mundo quer saber se as sentenças emanadas do Supremo eram à vera ou não eram, devia ser simples de responder. Essa novela vai por aí, se arrastando já há não se sabe quanto tempo, todo dia aparece uma notícia inesperada e creio que nenhum de nós se surpreenderá se, esta semana, for noticiado que a decisão final do Supremo estará condicionada à resposta a uma consulta feita pela Câmara de Deputados, ou coisa assim, o que, com a gripe que atacou um ministro, o impedimento de outro, e o atraso de outro, leva o caso, para que tenhamos certeza de uma decisão justa, para depois do recesso do Judiciário, no próximo ano.
Vimos também a cena envaidecedora em que nosso ministro das Relações Exteriores se manifestou, conforme ouvi num noticiário, "com dureza", sobre a espionagem cibernética americana, numa fala dirigida em pessoa ao secretário de Estado John Kerry. Disse umas verdades na cara do gringo, que o escutou com atenção, cortesia e respeito, para logo após retrucar que nos devotava desmesurado amor e descomedida amizade, mas continuaria a espionar e, acreditássemos, era para o nosso próprio bem. Se não gostarmos, claro, temos todo o direito de nos queixar ao bispo, ele compreende.
Esse mesmo ministério, aliás, deve estar às voltas com o perdão de dívidas milionárias que alguns países africanos têm com o Brasil. Comenta-se que isso é por causa do esquerdismo do atual governo, notadamente em sua política externa. Comenta-se também que o perdão dessas dívidas possibilita que os governos beneficiados fechem novos contratos com empreiteiras brasileiras. É o que dá o envolvimento com setores notoriamente de esquerda, como nossas empreiteiras, essa linha avançada do socialismo. Há apenas um ligeiro embaraço na coisa, pois se sabe que as empreiteiras, com toda a certeza, vão receber o delas
, mas os financiadores, ou seja, nós, vamos contribuir mais uma vez para os crimes e as contas bancárias de déspotas, genocidas e saqueadores de riquezas nacionais.
No cada vez mais fugidio setor de grandes realizações, a complexa coreografia governamental se tem exibido em torno do trem-bala, que o pessoal lá do boteco deu para chamar "trem-bala perdida". O trem-bala é um exemplo notável de aumento de custos recordista, talvez sem precedentes em todo o mundo, porque já perdemos a conta de quantas vezes esses custos foram revisados para cima. E agora li não sei onde, maravilhado com os nossos mecanismos de distribuição de renda, que, mesmo que se venha a desistir do trem-bala, o custo dele já terá sido mais ou menos um bilhão de reais. Não entendi direito, mas não se pode deixar de manifestar admiração.
Diante dessa sarabanda agitada e da luta para não largar o osso, lembro-me de quando eu era menino em Itaparica, punha um pedaço de rapadura no chão e ficava esperando formigas brotarem do nada, várias espécies que só tinham em comum gostar de açúcar. Umas ruças, grandalhonas, eram minhas favoritas, porque ficavam frenéticas e não paravam um segundo, para lá e para cá, em cima da rapadura, apesar de que, volta e meia, uma parecia se saciar e caía imóvel - dura para trás, dir-se-ia. Eu não sabia, mas estava vendo o Brasil, só que as formigas não se saciam e quem cai para trás somos nós.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Um coração triste







Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

A recente regulação trabalhista das empregadas domésticas tem provocado grande desconsolo em patroas peruas. Em pânico, descobriram que há 'classes sociais' e que as criaturas que limpam banheiros e fazem feijão não foram trazidas por um vento, sem endereço, sem sobrenomes, sem carteiras.
Por isso, lembrei-me de Um Coração Simples, de Flaubert, um dos maiores contos da história da literatura. Minha família também teve uma empregada perfeita, como a Felicité do conto, que durante a vida toda cuidou de uma família francesa de província como de um templo sagrado. Nossa Felicité chamava-se Hermínia. Era quase um fiapo, quase nada, pretinha, magrinha, mirrada e viera da roça como todas as empregadas da época. Achávamos que 'roça' era um lugar de onde vinham as pessoas pobres, outro país, com batatas e mandiocas, pastos de bois e empregadas que se agregavam a famílias urbanas. A 'roça' era o resto de um país de escravos libertos que continuavam escravizados por salários magros e se alojavam no quartinho perto do tanque. Hermínia trabalhava com meus avós que moravam ao lado de meus pais. Ela cozinhava, arrumava a casa, lavava, passava, com pequeno salário que guardava, pensando num futuro onde havia um enxoval e uma casinha. Viera muito mocinha; era da idade de minha mãe e minha tia e cresceu junto com elas, que casaram e tiveram filhos; ela não teve filhos nem casou, mas continuou rindo sem inveja, cuidando das crianças que não teve, a quem amava com devoção de 'mãe preta', como se nomeara. Talvez como consolo, falava sempre de um namorado que nunca ninguém viu chamado Ormezindo (lembro do nome que me fascinava e pensava: "Como será o Ormezindo?").
Ele nunca apareceu, nunca o vi. Em um fim de ano, ela o esperou para uma visita prometida. Não veio num dia, nem no outro. Até que uma prima ligou de um telefone público e ela se trancou no quartinho do quintal. Eu vi pelas frestas que ela chorava no chão, agarrada numa imagem de São Jorge, de capa vermelha, lança e dragão. Não tive coragem de entrar no quartinho, pois percebi que ela estava longe dali, chorando e falando com alguém em algum lugar da terra de onde viera. No dia seguinte, botou um vestido preto e foi à tenda espírita, de onde voltou mais calma, pois a mãe do centro lhe disse que um dia ela ia encontrar o Ormezindo de novo. Minha avó segredou-me que o Ormezindo aparecera morto na estrada de Pati do Alferes, onde se conheceram.
E a vida continuou. Todo mundo envelhecendo e só Hermínia continuava igual, como se o tempo não passasse sobre ela. Ali, sob o caramanchão do quintal, lembro de meu avô de pijama engraxando os sapatos, minha tia lavando os cabelos, minha avó regando as flores, e de mim mesmo, que ela fazia girar num corrupio que me arrancava risadas infinitas.
Sua presença atemporal me dava a sensação de que nossa vida suburbana era imutável. Hermínia era a empregada perfeita, tão diferente das criadas de mamãe, como a América, cozinheira maluca que (ela afirmava) voava até o teto, onde ficava grudada como uma lagartixa. Todas invejavam vovó com seus cabelos azuis que Hermínia tingia no quintal em uma bacia de louça. "Empregada boa é sorte..." - diziam as vizinhas.
Minha avó morreu de repente e meu avô, lentamente. Vovó deu um suspiro e finou-se; meu avô foi ficando lelé. Hermínia levava-o para passear e ele gostava de ver a estrela de néon da cervejaria Princesa, onde ele me levava sempre na infância.
Depois, ela foi morar com ele num apartamento de Copacabana, onde ele falava confusamente sobre seu passado. Consciente da memória frágil, um dia perguntou-me rindo: "A vida não tem sentido ou sou eu que estou gagá?" Ela cuidou de meu avô até o fim e me ajudou a pô-lo no caixão da Santa Casa.
Depois da morte de vovô, Hermínia foi trabalhar com minha mãe, mas não foi feliz. Minha mãe tinha caído numa progressiva depressão bipolar tendo horríveis fobias, como a cisma de que o gato do vizinho a odiava e lhe mostrava as garras ferozmente. Hermínia levou-a a um centro espírita 'linha branca' e a vidente lhe garantiu, com voz grossa de caboclo, que ninguém a perseguia, nem o gato. Não adiantou; piorou, pois mamãe acusou-a de ter parte com o Demônio do centro espírita. Hermínia aceitou a humilhação com a resignação do sofrimento pobre, aprendido entre milharais e pastos de capim-gordura.
Papai não falava quase, lendo revista na sala, de pijama, ouvindo os delírios de mamãe, pastoreada pela criada, virada em acompanhante.
Até que morreram os dois. Só ficou Hermínia, que foi morar com vagas primas em Caxias. Todo mês, eu mandava um dinheiro fixo para que cuidassem bem da minha babá já velhinha - se ela morresse, acabava a grana.
De vez em quando, ela me telefonava de Caxias. Dava para ouvir no fone o outro mundo onde ela vivia, agora no presente, com sons de rádios evangélicos, gritos de criança, latidos, ruídos de subúrbio longínquo. Sua voz soava um pouco como um anseio em busca do passado que tinha acabado. E como era estranho ouvi-la no presente, sua voz longe de nossa casa, como se ela tivesse sobrado da casa desabada, procurando meus avós! Ao telefone, sua voz ficava 'tatibitate' como se eu ainda tivesse 7 anos: "Oi, Arnaldinho, meu amorzinho?"
Até que um dia, ligou uma das primas para informar que Hermínia tinha feito a 'passagem' de noite. A 'passagem' fora muito calma: ela estava deitada na cama abraçada na estatueta de São Jorge.
Quando ela ainda era viva, de vez em quando eu mandava um táxi buscá-la. Ficava comigo no apartamento e eu a beijava muito, pois não havia assunto possível. Me tratava sempre como menino e ficava um pouco constrangida de estar na poltrona de veludo de mamãe que ela bem conhecia. De repente, se levantava e ia para a cozinha. Entrava com ar de titular diante da empregadinha e começava a lavar a louça. Eu protestava, mas ela fazia questão. Lavava pratos e copos com zelo. "Olha aqui o copo de cristal que seu avô gostava tanto...". Ouvindo os barulhos da louça, parecia mesmo que o passado tinha voltado.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Por que nada acontece no País?



Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Não são as décadas que nos transformam; são os fatos. Eles cavam buracos no tempo e criam caminhos que não podemos prever. Há épocas lentas, há épocas sangrentas, épocas eufóricas e ingênuas, há épocas que parecem ataques epiléticos da história.
Antigamente, achávamos que os fatos nos levariam a um futuro harmônico, que a vida era uma linha reta que ia desde os macacos até o paraíso cristão ou socialista ou, recentemente, ao fim da história.
Hoje vivemos em um labirinto de boas e más notícias, uma teia do homem aranha, um deserto do Iraque de ideias, um vazio de estupidez islâmica, um tempo de terrores como nos pesadelos de ficção científica. Antes, sonhávamos com o futuro; hoje, temos pavor de que ele chegue.
Na década de 60, ainda se comemorava a paz depois da guerra mundial, com euforia democrática movida pela prosperidade do capitalismo.
O mundo era dos jovens, era o oásis do pós-guerra. Havia o Vietnã, guerra fria, mas o clima das cabeças era de alegria. As saias curtas, as pernas de fora, as pílulas anticoncepcionais fazendo o sexo livre, a revolução gráfica desenhando uma vida ideal junto com a publicidade, havia um clima de ousadia, de fé, com a crença de que era simples fazer revoluções, de que o socialismo seria alegre e dançante em Cuba, de que os Beatles e os Rolling Stones nos libertariam para sempre da caretice. Mas, aos poucos, entendemos que o buraco do mundo era mais embaixo, que não bastavam palavras de ordem para vencer o conservadorismo.
Os líderes do sonho começaram a morrer. Guevara saiu de Cuba em busca da utopia e foi denunciado pelos próprios camponeses na Bolívia e morreu como um Cristo desmoralizado na selva.
As boas-novas sempre vinham anuladas por um desastre qualquer. A chegada do homem à Lua aconteceu ao mesmo tempo em que Sharon Tate, mulher de Polanski, grávida, foi morta a punhaladas por um bando de hippies enlouquecidos. A paz, o amor e a flor foram virando rancor, medo, ódio.
Aqui, a guerrilha urbana conseguiu seu maior feito - o rapto do embaixador americano Elbrick -, um gol de placa igual ao milésimo gol de Pelé no dia 19 de novembro de 69, junto também com a chegada do Médici ao poder, com sua cara de vampiro deprimido, enquanto o Marighella morria em São Paulo, enquanto os Beatles se separavam com a declaração de John Lennon de que o sonho tinha acabado.
Tudo ao mesmo tempo.
Aí, nada mais parou de acontecer no chamado "milagre brasileiro"; a burguesia enchendo a barriga de dinheiro em São Paulo e a violência militar e guerrilheira rolando solta; porrada e grana, enquanto a Transamazônica destruía a floresta, enquanto Leila Diniz morria num deserto da Índia, na queda de um Boeing japonês.
E assim fomos seguindo, com o progressivo fechamento da esperança, com os fatos ficando menores, mais episódicos, com as tragédias virando chanchadas e as alegrias murchando em melancolia. Era como se a grande História estivesse impedida e só as pequenas bobagens pudessem acontecer, prenunciando um futuro de inanidades, de irrelevâncias.
Nos anos 70, no Brasil, veio o misticismo laico da contracultura e as desgraças psiquiátricas causadas pela ditadura, enquanto um desastre de avião nos Andes provocava um banquete canibal na neve, Allende caía morto e subia o assassino Pinochet.
O fato mais importante foi a crise de petróleo em 73, com a Opep inaugurando a guerra fria entre o Oriente e o Ocidente, a mãe dos homens-bomba que até hoje nos assolam.
E assim fomos indo. Lembro-me do Tancredo no hospital e do sorriso deslumbrado dos médicos de Brasília, amparando o presidente como um boneco de ventríloquo para a opinião pública. "Vai morrer!" - arrepiei-me. O jaquetão do Sarney, deslumbrado e contristado, me arrepiou. A foto sorridente de Collor, na capa da Veja, com o título Caçador de Marajás, me deu pavor. Depois FHC e Lula (Se FHC não tivesse vencido, onde estaríamos hoje?).
E agora, que arrepio é este que sinto?
Estamos assistindo a uma nítida deterioração das instituições, quando ninguém teme mais nada, pois todos descobriram que delitos e corrupção "não têm bronca", não têm "pobrema". Como disse Lula uma vez: "Dossiê?... Ah, o povo pensa que é doce de batata..."
Este governo está desmoralizando os fatos. Os acontecimentos não acontecem, se diluem, morrem. Dilma anuncia medidas modernizantes, aeroportos, estradas de ferro, hidrovias, infraestrutura - mas tudo morre na praia; a burocracia sindicalista não permite.
Até aquele Paulinho da Força (com vários processos) consegue paralisar a reforma portuária... É espantoso.
Estive há pouco na Europa. Todos os países estão desesperados por problemas insolúveis. Espanha com 25 por cento de desempregados, a Itália com um ridículo palhaço levado a sério, a Holanda (até ela) está sem caixa, a América sob chantagem da direita, a Coreia um país psicótico sob um gordo louco, a primavera árabe morta e por aí vai...
Na imprensa mundial o Brasil é tratado como uma ex-esperança, atual vexame. Até o drama de Chipre vai nos beneficiar com ingresso de capitais. Estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de imbecis com dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do muro de Berlim. Esses canalhas desprezam a sociedade e acham que o Estado tem de nos tutelar.
Mas, até quando esse "chove-não-molha" vai aguentar?
Por que a besta do Brasil não prospera, por que continua atrás dos Brics, atrás da América Latina, por que até a Petrobrás caiu para a metade, saqueada pela porcada magra sindicalista? Por quê? Temos grana entrando, temos um governo com maioria total no Legislativo, sem oposição, sem nada. Por que não vamos para frente? Por quê, porra? Os diagnósticos são iguais no mundo todo: uma presidente rachada ao meio por fissuras ideológicas e dominada pela fome eleitoral do PT, a fim de virar um partido mexicano como o PRI. Os europeus têm inveja e desprezo por nós, porque eles querem sair da crise e não conseguem e nós temos tudo para nos salvar e não queremos...
Algo muito ruim cozinha em banho-maria nosso progresso. Há alguma coisa "não-acontecendo" no Brasil que me dá arrepios.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Fantasmas




Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
Neste final de mês, lembrei-me de uma instituição bem conhecida e pouco estudada - a amizade -, que tanto nos ajuda nas agruras (e no saboreio) desta vida, ao passar virtualmente uma semana na Carolina do Sul, Estados Unidos, entre Atlanta, Charleston e Seabrooke Island. 

Ao longo desses poucos dias frios e chuvosos, desfrutei de uma grata e ensolarada hospitalidade do casal Bete e Conrado Kottak, que nos recebeu e proporcionou raros e ilustradíssimos passeios pelos locais históricos dessas cidades sulistas tão densas de história e memória da guerra civil de 1861-65. Esse conflito, que fez o sul dos Estados Unidos, uma região tão parecida em concepção de vida e trabalho com o Brasil, perder parte de sua identidade, quando foi incorporada por meio da força das armas à "União", então presidida por Abraham Lincoln. 

Vale a pena viajar fora do eixo Miami/New York; ou Chicago/Los Angeles para conhecer o lado mais tradicional da América. Essa região marcada pela escravidão, pelas grandes fazendas de algodão e fumo, por uma economia de exportação primária tocada a escravidão e - tal como o Brasil de hoje - resistente à igualdade e ao liberalismo como estilos de vida. A ênfase na comida em conjunto, e na arte de conversar, foi parte do meu deleite quando em companhia de Conrado Kottak, professor emérito da Universidade de Michigan (Ann Arbor), autor de estudos de Arembepe, de Madagáscar, da televisão brasileira e do melhor livro de introdução à Antropologia que li até hoje, com quem discuti minha velha antropologia, pois é o velho que nos renova.

Toda essa jubilância culminou com uma visita à velha casa grande Edmondston-Alston. Para os americanos, assustava a cozinha separada da casa e as passagens secundárias destinadas aos escravos que viviam em suas senzalas e serviam seus donos em tudo e a toda hora, tal como até hoje ocorre no Brasil. Era uma casa em tudo brasileira. Excedia nesse brasileirismo, como diria Gilberto Freyre, as varandas com vista para o rio que, calmo e misterioso, passava sem parar. Não foi por acaso que George Gershwin escreveu Porgy and Bess exatamente em Charleston, em 1935, para ser o que chamava de uma "ópera americana popular". Música, comida e o gosto pela sociabilidade familística, eis alguns traços fortes deste Sul tão bem dramatizado por, entre outros, Mark Twain, William Faulkner e Tennessee Williams. 

E excedia também, conforme descobrimos no finalzinho da visita, pela presença do fantasma de uma de suas donas. Ela, diz o guia, abre portas fechadas e fecha portas abertas. E quando reina o silêncio escuro dos mortos que tanto nos perturba, faz barulho. Mas, diferentemente dos fantasmas nacionais brasileiros, não pede por missa nem padre-nossos porque o país não é católico e porque na América são os vivos que controlam os mortos, tal como este mundo controla o outro, como manda a mística luterano-calvinista. A ideia de um "paraíso agora" e não no futuro é o que fez esse sul virar o Sul desta América ainda voltada para o futuro, apesar desses tempos de fanático direitismo. 

Fui dormir pensando mais nos fantasmas do que no Sul do livro ...E o Vento Levou, escrito em 1936, cuja autora, Margaret Mitchell, morreu atropelada numa das ruas de Atlanta. Quando estava deitado, ouvi um barulho na varanda, mas era apenas um gato que me olhava como se eu fosse o famoso gato preto dos dois livros clássicos de Erico Verissimo sobre os Estados Unidos os quais, pensei na hora em que fitei o bichano, me impulsionaram, ao lado de Fred Astaire, Doris Day, O. Henry, Ava Gardner, Frank Sinatra e aquelas camisas com botões nos colarinhos, a conhecer os Estados Unidos. 

Lembrei então de uma experiência estranha que vivi em 1990, na Universidade Brown, quando ao tomar parte de uma conferência sobre a América Latina, fui hospedado numa casa igualmente ilustre e sombria. Ninguém falou em fantasma, mas senti aquela sensação de estar sendo seguido todo o tempo. Onze anos depois, numa outra conferência, desta vez na cidade de Ascona, Suíça, um colega de Brown, o famoso professor Bill Bilman, antropólogo e cantor de ópera, confirmou surpreso minha intuição me contando o seguinte:

Num outro evento em Brown, a convidada mais bonita foi assombrada noite adentro pelo fantasma de um rapaz que aparecia sentado ao lado de sua cama. Apavorada ela perguntou naquele estilo americano direto: "What do you want? (o que você quer?)" - a assombração sumiu.

Bill elogiou meu sexto sentido parte, na sua teoria, de todo bom antropólogo. Melhor observador do que teórico, retruquei que o quente do caso não era a minha sensação, que também senti na Capela Sistina, em pleno Vaticano, mas o fato de a moça se dirigir ao fantasma de modo direto, usando o igualitário "você" e exigindo que ele dissesse o que queria. No caso do Brasil, fantasmas são sempre endereçados com o velho e apropriado "vós" e "senhor" e são eles que demandam.

Afinal, entre nós, como fica provado pela política, são os velhos e os mortos que controlam a vida. Ou, pelo menos até hoje, tentam fazê-lo. Até que alguém descubra que fantasmas são ficção e só viram realidade quando queremos.