Roberto DaMatta
Estou dividido entre assistir às provas olímpicas e
testemunhar o julgamento do mais vergonhoso plano de permanecer no poder
da história da nossa douta, "legalística", aristocrática, populista e
milagrosa "semi-república". No caso da Olimpíada, as regras são simples
(não há recurso) e a igualdade competitiva é clara; no mensalão, tudo é
opaco - exceto a acusação, a vontade antidemocrática de poder que o
engendrou e o desejo de que as coisas não terminem em leite condensado.
Digo "semi-república" porque a expressão reitera o que, em 1979, no
livro Carnavais, Malandros e Heróis, eu chamei de "dilema brasileiro". A
oscilação de uma nação que quer a igualdade perante a lei, mas na qual o
Estado jamais deixou de isentar alguns dos seus cargos da
responsabilidade pública, abandonando para a sociedade o papel de burro
de carga de um sofisticado drama na qual ela sempre desempenhou um papel
subordinado.
Quando passamos de Império a República, continuamos
hierárquicos e aristocráticos, mas até certo ponto; e, já republicanos,
adotamos a igualdade, mas com uma tonelada de sal, inventando todas as
excepcionalidades que impedem a punição dos poderosos e condena os
subordinados ao castigo. Daí a importância olímpica do Supremo Tribunal
Federal, cuja conduta do julgamento em curso será importante para
alterar o dilema.
Temos não muitas formas de igualdade e diversos estilos de
aristocratizar. Nosso maior problema não é a desigualdade; é, isso sim, a
nossa mais cabal alergia e repulsa à igualdade! Quando sabemos quem é o
dono, ficamos tranquilos, mas quando todos são nivelados e postos em
julgamento, entramos em crise. Em toda situação reinventamos a
hierarquia, mostrando quem é inferior. Nas tão odiadas (e igualitárias!)
filas, isso é mais do que patente. No trânsito, uma igualdade
estrutural é, infelizmente, constitutiva como digo em Fé em Deus e Pé na
Tábua, e o resultado é esse escândalo de acidentes e imprudências,
todos capitulados na mestiçagem das leis que igualam de um lado para
"exepcionalizar" do outro.
Não foi fácil, neste Brasil de Pedros (de Avis e Bragança), criar um
padrão de troca único, nivelador, confiável e, por isso, as nossas
doutrinas políticas mais chiques até hoje odeiam o mercado e a sua
igualdade competitiva que implica meritocracia. Essa disputa tão óbvia
nos jogos olímpicos que levam ao conflito aberto e ao bate-boca - esses
reversos dos padrões de comportamento nobres, baseados quase sempre na
insinceridade, no realismo político segundo o qual os fins justificam os
meios e o ganhar a qualquer custo; e na mentira como moeda corrente. Em
suma, tudo isso que está inscrito e será julgado no mensalão.
Vivemos um momento histórico dramático: o da impossibilidade de
hierarquizar impunemente, como tem sido o costume. E, ao lado disso, a
demanda pela igualdade que evidentemente vai obrigar a uma transformação
dos velhos códigos de comunicação, sobretudo os legais que, no Brasil,
mudam e se atualizam menos do que as reformas ortográficas! Essa demanda
tem aspectos radicais no que tange aos que ocupam cargos públicos. Está
em curso, hoje em dia, uma intolerância jamais vista contra a ética de
favores e personalismos que impediam suspeitas, avaliações e
julgamentos.
Aliás, o libelo do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, foi
incisivo no sentido de não isentar os atores, aceitando as desculpas
mais comuns das sociedades arcaicas, reacionárias e hierárquicas: a tese
do "eu não sabia"; a qual, no fundo, desvenda a posse do papel pelo
ator ou, pior que isso, o controle e a propriedade do político e do
partido do cargo público e, no caso do mensalão, da própria máquina
política.
Quando se trata de falar da igualdade como um valor, não há como não
discutir algo jamais visto na chamada "política" nacional. O fato de que
é o povo que legitima pela eleição o gerenciamento de um cargo que não
pertence a nenhum poder, mas a sociedade como um todo. Por isso, o povo -
por meio dos tribunais e da lei que a todos subordina - pode punir o
ocupante que trai o seu papel. Nosso viés aristocrático tem inibido a
discussão do laço entre pessoa e papel. O que conduz ao inverso da nossa
tradição, pois num regime igualitário, quanto mais nobre e importante o
papel, menos desculpas para a improbidade de quem o ocupa. O poder não
pode mais continuar a ser visto no Brasil como uma medalha de ouro
olímpica, com direitos a isentar os eventuais crimes de quem está no
poder. Ele deve ser redesenhado como algo que implica direitos e
privilégios, mas sobretudo honra, austeridade e obrigações. Na
democracia, como viu Tocqueville, os cargos públicos implicam mais
deveres do que privilégios. Como, aliás, ocorre na Olimpíada quando um
atleta recebe uma medalha de ouro se vê compelido a ser também possuído
pela excelência que o prêmio representa.
Resta esperar que o TSF decida olimpicamente - sine ira et studio
(sem raiva, preconceito ou condescendência), como dizia Max Weber - e,
assim fazendo, mude a índole das práticas políticas brasileiras.

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