José
Nêumanne
Observação do
professor Garcia chama atenção para estilo de comando de sua chefe, Dilma, que a
agir, negociar ou transigir prefere se irritar e, dessa forma, confirma natureza
“hepática” do brasileiro
“A presidente
tem coisas melhores para se irritar do que com os comentários de um boquirroto”.
A frase transcrita é da lavra do professor universitário Marco Aurélio Garcia,
assessor especial da presidência da República para assuntos internacionais. E
fundador da “diplomacia do toc toc”, gesto fescenino com que o Fradim,
personagem das tiras do chargista Henfil, mandava alguém para “aquele lugar” e
com o qual ele saudou acidente em que todos os seres humanos dentro de um avião
morreram incinerados. Sendo próximo de Sua Excelência, o mestre-escola deve
saber o que diz. E traduziu em verbo de ação: Dilma Rousseff não atua, não
governa, não comanda e não negocia. Ela tão somente se
irrita.
O
secretário-geral da Fifa, Jerôme Valcke, ao que tudo indica, prefere a
diplomacia do “pontapé do traseiro” à escola tupiniquim da palma aberta da mão
direita a percutir seguidas vezes os dedos indicador e polegar da esquerda em
círculo, como o fez o assessor especial em júbilo fora de hora diante do
infausto noticiado. Mas na certa não foi por isso que nosso dignitário o chamou
de “vagabundo”. Fê-lo por fidelidade a um estilo pouco polido com que os
petistas de escol se referem a adversários. Jornalistas que noticiam ou opinam
sobre “vagabundagens” na gestão pública são tratados como “canalhas” ou
“negrinhos de alma branca” por áulicos regiamente remunerados para os
governantes de ocasião não terem de reagir a desaforos ou denúncias. A categoria
como um todo é chamada de Partido da Imprensa Golpistas (Pig, porco em
inglês).
O padrão de
tratamento (financiado pelos ofendidos) foi muito empregado no governo Lula, que
na certa nunca se portou como um cavalheiro de fino trato social. E é mais
incentivado por sua sucessora na presidência: Dilma é conhecida por chiliques e
destampatórios com que se dirige a assessores tratados como reles serviçais. Em
vez de demitir os arengueiros presidentes do Banco do Brasil e da Previ, ela
“protegeu” a credibilidade das instituições dizendo-se indignada com
ambos.
A chefe do
governo, que se desmanchou em lágrimas ao demitir um insignificante companheiro
de pasta sem valor nenhum, introduziu os maus bofes como prática corriqueira nos
gabinetes palacianos. Pelo visto, isso não prejudica seu prestígio popular, que
continua altíssimo. Aliás, não teria que ser diferente. Na monólogo escrito por
Marta Goes e interpretado por Regina Braga costurando textos da poetisa
americana Elizabeth Bishop, há uma aguda observação sobre a natureza do povo do
Brasil, onde esta viveu bastante tempo: reagimos mais com o fígado do que
pensamos com o cérebro. A presidente o comprova.
Jornalista,
escritor e editorialista do Jornal da Tarde

Nenhum comentário:
Postar um comentário