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sábado, 5 de janeiro de 2008

Ora agora governo-me, eu. Ora agora governas-te, tu…

Artur Teixeira é um português que ama o Brasil, onde viveu durante dez anos. Aqui, um artigo dele sobre a promiscuidade que há em Portugal entre a política e os negócios, tema que nos é muito familiar, trivial, aliás.
Se dúvidas ainda houvessem, os factos recentes, sobre a dança de cargos administrativos no Banco Comercial Poprtuguês e na Caixa Geral de Depósitos, dissipam-nas por completo. Tais acontecimentos demonstram à exaustão a pouca vergonha que se instalou, qual praga, no sistema político partidário português. Nesse sentido, a crise de liderança no Banco Comercial Português, o maior banco privado do mercado doméstico, está paradoxalmente a ter um efeito positivo. Põe em evidência a promiscuidade há muito existente entre o sector bancário, e não só, e o chamado Bloco Central (PS e PSD), que alguns opinion makers da nossa praça a dão como uma “normalidade” em Democracia.
A crise de liderança no BCP estala quando Paulo Teixeira Pinto, Presidente Executivo, resolve “destronar” o velho líder e seu Padrinho, Jorge Jardim Gonçalves, fundador do banco e Presidente do Conselho Geral, apoiado por um grupo de accionistas descontentes com a liderança de Jardim, em que se destaca o empresário madeirense Joe Berardo. Do nosso ponto de vista porém, a razão fundamental da contestação deveu-se à falta de resultados expectáveis e consequentemente, à perda de confiança na direcção do banco. Vieram depois as denúncias de ilegalidades: perdão de dívidas e a compra de acções próprias via off-shore, que corroboram a acusação de uma gestão ruinosa. Em consequência, os responsáveis estão demissionários e sob a alçada de investigação da CMVM, Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, e do Banco de Portugal, tendo este último determinado que nenhum dos administradores do BCP, desde 1999, pode voltar a exercer funções de gestão no banco.
A crise do BCP, que se arrasta há meses, está a orientar-se para uma solução política de sentido partidário, o que, do nosso ponto de vista, não se encaixa no conceito clássico de um banco privado. Todavia todos os arranjos são hoje possíveis, numa época em que a honra e os princípios éticos pertencem à arqueologia… Há contudo quem aponte uma orientação supra-partidária conotada com a disputa tradicional entre a Opus Dei e a Maçonaria, acusando esta de estar prestes a substituir a primeira no comando do banco. Será?
Já se sabia dos “tachos administrativos” que o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata dividem entre si e entre os seus apaniguados mais sonantes, uma clientela partidária que, em grande parte, deve a carreira “profissional” à política. Não se tinha porém um conhecimento público tão descarado, como agora, quando o líder social-democrata, Luís Filipe Menezes, reclamou para o seu partido, desabridamente na Comunicação Social, um “poleiro administrativo” na Caixa Geral de Depósitos, o Banco do Estado. Alegou a favor da sua reivindicação que no tempo em que o actual Presidente da República, Cavaco Silva, foi 1º. Ministro, o cargo máximo daquele banco foi entregue a uma destacada figura do PS. De facto “mais vale sê-lo, do que parecê-lo”… Deixou ainda no ar a ideia de que só desta forma está garantida a isenção partidária do Governo. Agora percebemos o conceito do Estado mínimo… Um Estado que serve apenas os interesses de meia dúzia…
A crítica de Luís Filipe Menezes, longe de ser uma sincera confissão política, exprime a promiscuidade em que navega uma certa classe política, que de tão desavergonhada já nem se resguarda da fama e da imagem que tem junto do povo: “eles querem é tacho!”. E assim parece de facto.
“Quem não chora, não mama”, diz com propriedade o dito popular. Bastou o líder do PSD “choramingar” pelo “tacho” para um dos seus pares e logo o Ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, não se fazer rogado, apesar de o negar… Nomeou para Presidente da CGD outro Fernando: Faria de Oliveira, militante do PSD e ex-ministro de Cavaco Silva. Evidentemente que tal escolha não é um acaso. Trata-se de uma indisfarçável partilha de “tachos” no quadro de um “pacto de regime” há muito firmado entre os dois maiores partidos.
Entretanto migra para a administração do BCP, a direcção da CGD: Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, ambos da área do Partido Socialista, sendo este último, um homem de mão do incansável 1º. Ministro José Sócrates. De uma cajadada… o actual Governo mantém um pé na CGD e coloca o outro no BCP, garantindo, segundo alguns especialistas, o “tráfico de influências” em praticamente toda a banca. Estão pois assegurados os “tachos” actuais e os futuros… além, claro, dos bons negócios sob o beneplácito do Estado.
Por outro lado, ao contrário do que se podia esperar, os principais accionistas do BCP, habitualmente alérgicos a qualquer influência tutelar do Estado, não estão preocupados com a presença de duas figuras conotadas com o PS no Conselho de Administração. Naturalmente contam com a “indiscrição técnica e profissional” daqueles ex-administradores da CGD. Trata-se de um importante concorrente que importa reduzir a sua influência no mercado, pelo que com propriedade alguém já chamou a esta operação de uma “OPA sobre os segredos da CGD”.
À última hora, Miguel Cadilhe, ex-ministro das finanças de Cavaco Silva e militante do PSD, anunciou mais do mesmo… Apresentou uma equipa de notáveis, disposta a conquistar a torre de menagem do BCP, concorrendo com a lista de Carlos Santos Ferreira. Curiosamente inclui, além dele próprio, outro político ex-ministro do governo de Durão Barroso e de Santana Lopes, Bagão Félix. Não sendo menos interessante, o proponente da lista é ex-responsável administrativo e reformado do BCP, tal como o seu companheiro, facto que levou Joe Berardo a declarar, na sua habitual linguagem “sem papas na língua”, que o banco não é um “lar da terceira idade”. Cadilhe, por outro lado, no quadro das investigações às operações ilícitas do BCP, está inibido pelo Banco de Portugal de exercer qualquer cargo administrativo no banco que pretende liderar. Os outros são também ex-qualquer coisa…
Ou muito nos enganamo, ou o PS e o PSD vão ter que se entender sobre uma nova distribuição dos “tachos”…
Artur Rosa Teixeira
(Assistente Operacional de Construção Civil)
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