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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Precisamos ser investigados!


Roberto Damatta

A diretora da Petrobrás admitiu num café da manhã concedido aos jornais, no dia 17 do corrente, que ela "Precisa ser investigada. Os diretores, nós precisamos ser investigados".

Seu axioma é simples: eu não temo a verdade, logo admito uma investigação. A perquirição é, em princípio, incompatível com a verdade; ou, melhor dizendo, ela conduziria a uma prova de que tanto a diretora quanto a sua diretoria, nada têm a ver com a petrogatunagem que envergonha o empresariado nacional e enxovalha o governo Dilma, o PT e seus sequazes.

É o pior presente de Natal da história do Brasil.

Mas esse brado de autoinvestigação permite uma ressalva que eu tomo a liberdade de fazer com um pedido de vênia à Sra. Graça Foster.

Um inquérito não comprova a verdade. A investigação é um meio para se chegar à verdade ou à mentira. Ou, talvez pior que isso e como estamos fartos de testemunhar, a investigação, o julgamento, os recursos proporcionados aos poderosos pela nossa douta teologia jurídica na qual uma ética de isenção passa ao largo, simplesmente legalizam a falcatrua e, assim fazendo, legitimam o lado mais sombrio da impunidade. Faz-se a injustiça por meio da Justiça!

Eis uma inversão inadmissível em qualquer coletividade minimamente honrada e fiel a si mesma. Torturar, roubar e assassinar não devem santificar ninguém.

Guimarães Rosa dizia que "o começo é tudo". Uma vez montado um plano, um enredo ou uma política, essas máquinas demandam coisas insuspeitas dos seus autores. Se o enredo requer um velho e os atores são jovens, há que se usar um maquiador para tornar um jovem, velho. No regime militar, montou-se um teatro que excluía parte da plateia ou até mesmo a quarta parede como realidade. Se o caminho foi para sul ou para o norte, o que se segue é - desculpem o óbvio - seguido. Mudar o passo no meio do salto resulta em queda ou desastre. Quando escolhemos um rumo, este rumo faz demandas e nos coage a tomar certas atitudes. Quando um regime que pretende restaurar a ordem promove e proíbe a discordância, como foi o caso do regime militar, tudo se torna político e passível de ser investigado. Um piscar de olhos vira sinal de uma conspiração, e uma música um hino revolucionário. Se a porta tem uma pequena brecha, é preciso arrombá-la, o que leva à criação de portas de aço.

Não há como obter democracia negando aquilo que é a própria democracia: o direito de discordar. Suprima-se esse princípio e você inventa em nome da ordem, a subversão e a traição.

A violência surge quando o direito de criticar e discordar é escamoteado ou proibido em nome de alguma coisa. Investigar e se escandalizar com a roubalheira da Petrobrás não significa que se quer acabar com ela. Pelo contrário, o que se deseja é salvá-la. O reinado da lei só existe quando a lei não foi rasgada ou controlada por uns poucos ou em nome de algo intocável ou sagrado. Pois a lei é o meio pelo qual, numa sociedade de iguais em direitos, valores são invocados, disputados e discutidos e trocam de lugar como verdades ou mentiras. A mobilidade é parte da vida democrática e ela inclui também crenças, utopias e tabus.

Um velho sábio dizia que não se pode viver sem a mentira, que é companheira da verdade. Mas se verdade e mentira formam um par, esse par só é legítimo na medida em que a mentira não seja estimulada. Em outras palavras, não se constitua como um valor.

O clamor da diretora pode ser interpretado neste sentido. Nele, há o grito do aprendiz de feiticeiro pedindo socorro a um bom exorcista. O fogo começa a pegar naqueles que talvez o ignoravam ou achavam que podiam controlá-lo. Não sei...

O que sei e lamento é que quando o escândalo vira rotina, há algo profundamente tortuoso com os valores de um país. Não há como não concordar com FHC que o Brasil perdeu o rumo. E num sistema sem rumo, nem o capitalismo que promoveria o fim do mundo termina; e seria impossível conceber uma nova utopia com um comissariado desonesto. Aliás, com esse elo estrutural entre política e roubalheira, não dá nem para nomear um ministério.

Não se trata simplesmente de separar a honestidade da corrupção fazendo um ingênuo pacto político para eliminar a ladroagem. O honesto e o desonesto, como o bem o mal, fazem parte da mesma moeda e ocorrem em todo lugar. A questão não é tentar acabar com um lado que não existe sem o outro, mas compreender que a desonestidade só é normal se for ilegitimada e punida. Com os dois pesos e medidas da velha malandragem nacional estudada por mim faz tempo, a verdade não sai do fundo do poço. A honestidade só vai se transformar num valor, quando a desonestidade perder a sua aura de santidade e esperteza. Precisamos, sim, ser investigados porque estamos perdidos num labirinto que construímos e jogamos fora o fio de Ariadne: o valor - escolha do caminho da luz e da lei. A capacidade de dizer não a nós mesmos.

Termino desejando a todos os que me honram lendo essa coluna um Feliz Natal e próspero ano novo.

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