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domingo, 14 de abril de 2013

A Grande Fome na China


Yang Jisheng é um funcionário aposentado da agência de notícias estatal  chinesa Xinhua, e passou a se dedicar à publicação de título inocente Anais do Imperador Amarelo.


Entretanto, as histórias de horror descritas por este homem de 72 anos são tão medonhas e de tal vulto que  parecem mentira; uma farsa de mau gosto; uma sátira exagerada sobre fanatismo e tirania.
Uma década depois da assunção do Partido Comunista ao poder, em 1949, prometendo atuar em benefício da população, a maior tragédia causada pelo homem em toda a história da humanidade assolou uma nação já abalada pela pobreza. Em uma obscura cidade da província central de Henan, mais de um milhão de pessoas – uma em cada oito – foram mortas pela fome e brutalidade em apenas três anos. Em uma das regiões, agentes do governo exigiam uma colheita de cereais maior  do que a quantidade efetivamente plantada pelos agricultores. 

Em apenas nove meses, mais de 12.000 pessoas – um terço da população local – morreram em uma só comuna; uma em cada dez casas foram destruídas. Treze crianças que pediram comida aos militares foram jogadas por eles em uma ribanceira, onde morreram de fome e exposição ao frio. Uma adolescente órfã matou e comeu seu irmão de quatro anos. Quarenta e quatro dos 45 moradores de uma aldeia morreram; e o único remanescente, uma mulher de uns 60 anos, enlouqueceu. Outros foram torturados, espancados ou enterrados vivos por terem revelado a verdadeira quantidade da colheita, se recusado a entregar a pouca comida que tinham, furtado restos de alimentos ou simplesmente por terem discutido com os agentes.
Quando o chefe de uma brigada de produção ousou dizer o óbvio – que não havia comida – um  líder o alertou: "Isso é pensamento de direita. Você está vendo as coisas de maneira simplista."
Página após página – mesmo a radicalmente editada tradução inglesa chega a ter 500 páginas – este livro, Tombstone (Lápide), enumera uma sequência de episódios tão terríveis quanto impensáveis. Mas essas cenas não são fruto da imaginação de Yang. Elas estão além da imaginação de qualquer um. O autor passou 15 anos  documentando meticulosamente a catástrofe que resultou em ao menos 36 milhões de mortes em todo o país, inclusive a de seu pai.
A Grande Fome é até hoje um tabu na China, onde é  conhecida pelos eufemismos de os Três Anos de Desastres Naturais, ou os Três Anos de Dificuldades. O monumental relato de Yang,  publicado inicialmente em Hong Kong, foi proibido em seu país.
Ele não fazia ideia do que haveria de descobrir quando começou suas pesquisas: "Não imaginava que fosse algo tão grave, brutal e sangrento. Não sabia que havia milhares de casos de canibalismo, nem dos agricultores que foram espancados até a morte.
"Quando uma pessoa morria, seus parentes não a enterravam para  poderem continuar recebendo sua cota de ração alimentar; eles mantinham os corpos em uma cama e os cobriam, deixando que fossem devorados por ratos. As pessoas comiam os corpos, chegando a disputá-los. Em Gansu, forasteiros eram mortos; moradores locais contaram ao autor que os passantes eram mortos e devorados. Chegavam a comer os próprios filhos. Terrível. Terrível ao extremo."
O autor conta que no começo se sentiu profundamente deprimido ao ler os documentos, mas depois se dessensibilizou – do contrário não teria conseguido levar a cabo o trabalho.
Apesar do nome aparentemente inofensivo, Anais do Império Amarelo é um coraqoso jornal liberal que frequentemente  aborda questões sensíveis. Mas escrever Tombstone foi também um projeto pessoal. Yang, em suas palavras, estava determinado a "erigir uma lápide para meu pai", as demais  vítimas e o sistema que os levou à morte.
A história se inicia com Yang voltando da escola, quando encontra seu pai morrendo: "Ele tentou me estender a mão, mas não teve forças … Eu fiquei chocado ao perceber que a expressão 'pele e osso' se referia a algo tão horrível e cruel," escreveu.
Sua aldeia se transformou em uma cidade-fantasma, com  a terra arrasada e  as plantações destruídas. Para seu remorso e pesar, ele havia considerado a morte como a tragédia isolada de uma família: "Eu tinha 18 anos naquela época e só conhecia a versão do Partido Comunista. Todos foram enganados," diz. "Eu era um comunista de carteirinha. Fazia parte da equipe de propaganda, e acreditava que a morte de meu pai havia sido  uma tragédia pessoal. Nunca imaginei que o governo fosse o responsável por ela."
Ele começou a trabalhar na agência de notícias estatal Xinhua após terminar a faculdade, na época em que a loucura política da  Revolução Cultural estava começando a causar destruição no país: "Quando me lembro do que escrevi [naquela primeira década], penso que deveria ter queimado meus manuscritos," diz. Ainda na época em que ele escrevia seus hinos para o partido, seu cargo já começara a lhe permitir vislumbrar a verdade oculta pelas aparências. Um dia, ele ficou chocado ao ouvir um velho líder da província de Hubei dizer que 300.000 pessoas havia morrido lá – a primeira pista de que a morte de seu pai não havia sido um fato acidental isolado. Foi, segundo ele, um processo de conscientização gradual. Ele continuou trabalhando na Xinhua, uma tarefa facilitada pela reforma do país e pelo processo de abertura e sua própria  evolução; na terceira década de sua carreira, diz, "Eu pensava com independência e estava dizendo a verdade." Foi quando começou a trabalhar em Tombstone: "Eu tinha uma vontade muito grande de esclarecer os fatos. Eu havia sido enganado, e não queria sê-lo novamente"
Paradoxalmente, foi graças a seu trabalho na Xinhua que ele pôde descobrir a verdade sobre a fome, quando vasculhava os arquivos sob o pretexto de algum estúpido projeto sobre política de agricultura estatal, munido de cartas de apresentação fornecidas pelo governo.
Várias pessoas o ajudaram na empreitada; gente do governo local e outros funcionários da Xinhua. Eles sabiam o que você estava fazendo? "Sim, eles sabiam," diz.
Apenas uma vez, nos arquivos de Guizhou, no sudoeste, ele quase foi descoberto. "Os funcionários locais disseram: 'Não podemos deixá-lo entrar; você precisa apresentar uma permissão do diretor,'" recorda Yang. "O diretor disse: 'Tenho de pedir permissão ao vice-secretário do partido na província.' Assim, lá fomos nós falar com o vice-secretário da província. Ele disse: 'Tenho de perguntar ao secretário do partido.' Este, por sua vez, disse: 'Tenho de consultar o governo central.'"
Yang faz uma pausa. "Se o governo central soubesse, eu estaria em apuros." Pediu desculpas e foi embora.
Passado meio século, o governo ainda considera a Grande Fome um desastre natural e refuta os reais números de mortos. "O problema principal é o próprio sistema. Eles não ousam admitir seus problemas… Se o fizerem, isso pode afetar a legitimidade do Partido Comunista," diz Yang.
O número de mortos é crescente. "O máximo que o governo admitiu são 20 milhões," diz, mas considera que o total seja de 36 milhões. "É o equivalente a 450 vezes o número de pessoas mortas pela bomba atômica que explodiu em Nagasaki … e superior ao total de mortos na Primeira Guerra Mundial," escreveu. E muita gente ainda considera esse número modesto: em seu aclamado livro A grande fome de Mao, Frank Dikotter calcula que esse total seja de, pelo menos, 45 milhões.
Tombstone demonstra em detalhes que a fome  foi não só um episódio de enormes proporções, mas proposital; e não só causado pelo homem, como também político, gerado pelo totalitarismo. Mao Zedong prometera fazer da China um paraíso  comunista através do mais puro zelo revolucionário, fazendas coletivas e criação de grandes comunas a um ritmo assombroso. Em 1958, ele foi ainda mais longe, lançando o Grande Salto Adiante: um plano para modernizar toda a economia chinesa, tão ambicioso que beirava a loucura.
Muitos acreditam que a ambição pessoal foi um fator crucial. Não satisfeito em ser "o mais poderoso imperador a governar a China", Mao se empenhou em conquistar a liderança do movimento comunista internacional. Se a União Soviética acreditava poder alcançar os EUA em um prazo de 15 anos, disse, a China poderia suplantar a produção da Grã-Bretanha. Sue constantes ataques a outros líderes  que ousavam expor sua preocupações intimidavam a oposição.Mas, como observa Yang: "É um processo histórico muito complexo entender por que a China acreditou no Maoísmo e seguiu seu caminho. Não foi um erro individual, mas coletivo. Foi um processo."
O plano se mostrou um desastre desde o começo. As autoridades regionais, por fanatismo ou temor, enviavam relatos exagerados, irreais, de seu sucesso ao comando central, falando em colheitas três ou quatro vezes maiores que  o real. Autoridades de escalões mais altos citavam enormes quantidades de grãos destinados às cidades, e até exportados. Grupos assediavam ou matavem os que tentavam dizer a verdade e dissimulavam as mortes quando relatos de problemas chegavam ao centro.
Mesmo assim, o trabalho de Yang e outros provou que líderes importantes em Pequim sabiam da fome já em 1958. "Distribuir recursos de maneira equânime só servirá para prejudicar o Grade Salto Adiante," alertou Mao a seus companheiros um ano depois. "Quando não há comida suficiente, as pessoas morrem de fome. É melhor deixar que metade do povo morra para que o restante possa comer o suficiente."
A impiedade tomava conta de todo o sistema. Em Xinyang, a cidade de Henan no centro do desastre, os que tentavam escapar da fome eram cercados; muitos morreram à míngua ou pela brutalidade sofrida nos centrosn de detenção. A polícia caçava os que ascreviam cartas anônimas de alerta. As tentativas de controlar a popução chegavam ao sadismo extremo, com grupos  torturando suas vítimas de forma requintada, ritualística: "os livros não mencionam nada desta parte da  história," diz Yang. "Em todas as festividades, eles fazem propaganda das conquistas do partido, de sua glória e correção. A ideologia popular foi formada ao longo de vários anos. Portanto, é imprescindível, agora mesmo, escrever este livro; do contrário ninguém conhecerá esta verdade histórica."
Existem indícios de que ao menos algumas pessoas na China desejam tratar desse assunto. No ano passado, a publicação Southern People's Weekly ousou publicar uma edição com as palavras "A Grande Fome" em grande destaque na capa. Dentro, um artigo fazia referência à calamidade como um problema causado por pessoas, e não natural.
Yang acredita que Tombstone será publicado na China continental, talvez no decorrer desta década. Ele diz com satisfação que já há, provavelmente, algo como 100.000 exemplares em circulação, dentre as quais versões piratas ou contrabandeadas de Hong Kong.
Mas as cortinas estão-se abrindo em outras frentes. Zhou Xun, cujo novo livro, A Grade Fome na China, apresenta, pela primeira vez, documentos originais sobre o desastre, escreve dizendo que boa parte daquele material já foi tornado inacessível pelos arquivos.
"As pesquidsas sobre o assunto se tornarão mais difíceis. Eles não vão mais deixar as pessoas verem essas coisas," alerta o autor e fotógrafo de Pequim  Du Bin, cujo livro que será lançado, No One In The World Can Defeat Me (Ninguém no mundo poderá me derrotar), põe lado a lado relatos e imagens do  horror com a alegre propaganda daquela época.
Na China, a história não pode ficar restrita a um livro; ela sempre ameaça transbordá-lo: "Embora muitos anos tenham se passado, o Partido Comunista ainda manda no país," diz Yang. "Eles admitem os fatos, mas não querem falar sobre eles; afinal, trata-se de uma tragédia perpetrada sob o  governo do Partido."
Alguns têm esperança de que uma nova geração de líderes que chegue ao poder possa querer rever a história do país e reconhecer os erros cometidos. Outros acham que não será difícil para eles continuar ocultando o passado. "Como partido se aprimorou  e as coisas também melhoraram para a população, dificilmente as pessoas irão acreditar nas brutalidades daquela época," observa Yang.
Ele lembra um encontro com um trabalhador de Xinyang que perdeu dois membros de sua família devido à fome. O neto adolescnete do homem simplesmente não acreditava em seus relatos,e ambos acabaram discutindo. Ainda assim, a força da verdade para mudar a China se manifesta no próprio  Yang: "Eu era uma passoa muito conservadora, que cresceu educada sob as diretrizes do Partido Comunista. Minhas ideias eram simplórias. Agora, tenho liberdade de pensamento. Acho que a China deveria evoluir para uma democracia com economia de mercado," diz.
Ele é um patriota; ele realiza seu trabalho  diligente e arriscado não só por si e seu pai,mas também por seu país: "O povo chinês foim enganado. Ele merece saber a verdade."



Esquerdistas exibem cartazes e fotos do finado governante chinês Mao Zedong (ou Mao tsé-tung), num protesto á porta do jornal liberal Southern Weekly na cidade de Guangzhou, em 9 de janeiro de 2013, classificando a publicação de "jornal traidor" por desafiar o partido. 

O chefe do Partido Comunista da província de Guangdong intercedeu para mediar um acordo sobre a censura de um jornal chinês na terça-feira, segundo uma fonte, dando uma sinalização potencialmente encorajadora  de aumento da liberdade de imprensa na China. Os anagramas em chinês nos cartazes de protestos dizem: "Traidor". 

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