José
Nêumanne
E os tucanos
ficaram furiosos por terem perdido a chance de preceder o PT no
afã
Há nos afagos
entre o ex-governador Paulo Maluf (PP-SP) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT-SP), sob os olhares embevecidos de Fernando Haddad, mais filustria do
que possa perceber nossa vã filosofia. Mas, por incrível que pareça, há também
muita sintonia. Ou, como reza o título do romance famoso de Goethe,
Afinidades eletivas. Como? - perguntará o leigo desabituado aos vaivéns
da política, que o ex-governador de Minas e banqueiro Magalhães Pinto comparava
com a mutação das imagens formadas pelas nuvens no céu. Ele mesmo comprovou sua
metáfora fundando o PP com seu principal adversário mineiro, Tancredo Neves –
um, ex-UDN, outro, ex-PSD –, aparentemente inconciliáveis. Os mais ingênuos
dirão que não há traços ideológicos comuns entre o PT de Lula e o PP atual, que
conta entre seus mais fortes dirigentes com um sobrinho do presidente que foi
sem nunca ter sido, como a Viúva Porcina, Francisco Dornelles, também aparentado
do caudilho gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Ora, ora, mas quem está interessado
em ideias? Na política contemporânea contam cargos na máquina administrativa
pública e segundos no horário da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV.
O PP ficou com um cargo; o PT, com mais 95 segundos para vender seu peixe fora
d’água ao eleitorado escaldado, como sempre o foi o
paulistano.
Maluf nunca
deixou de ser o que dele dizia Lula nos tempos em que encarnava o furibundo João
Ferrador, personagem das greves do ABC lideradas por ele nos jornais dos
metalúrgicos nos anos 70 e 80 do século 20: um “filhote da ditadura”. Prefeito
nomeado pelos militares para administrar a maior cidade do País, o ricaço
descendente de libaneses ganhou de seus admiradores a imagem do realizador,
tocador de obras. O símbolo desse gestor que faz mais é o horrendo Minhocão, sem
o qual hoje o trânsito paulistano não fluiria. Seus detratores, entre os quais
os petistas que estão no poder federal e os tucanos que governam o maior Estado
da Federação, o rotularam como símbolo da malversação do ensebado dinheiro do Zé
Mané, que paga impostos e quase nada recebe em troca do Estado. Essa moeda de
duas faces, não necessariamente excludentes nem sequer opostas, poderia ter a
inscrição “rouba, mas faz” do velho Adhemar.
Mas Lula está
longe de ser o demônio execrado pelos malufistas de antanho como um perigoso
inimigo do mercado e da democracia, um sindicalista subversivo que liderava
grevistas furiosos no ABC e se deixou, depois, politizar por antigos
guerrilheiros que queriam mudar o sinal de uma ditadura de direita por outra de
esquerda. Mais longe ainda está o PT, que o sindicalista fundou, de sua imagem
original de partido ideológico comprometido com a mudança de “tudo o que está
aí”. Atolado até o pescoço num pântano de corrupção e desmandos em
administrações municipais, estaduais e federal, o partido se deixou levar pelo
canto da sereia da conciliação de seu principal líder e ocupou o bote
salva-vidas ao lado de Jader Barbalho, Severino Cavalcanti e...
Maluf.
Para sobreviver
no campo minado da política partidária brasileira, Lula trocou os piquetes do
ABC pelo toma lá dá cá franciscano, superando os aliados que combateu antes de
cingir a faixa presidencial. Para tanto adotou, sem pejo, a retórica dos
cultores da velha realpolitik tupiniquim. Nisso o milionário da
madeireira foi um mestre valioso para o aplicado estudante egresso do miserável
semiárido nordestino. Se não o superou em cinismo, tarefa reconhecidamente
hercúlea, cultiva a caradura com eficiência ainda maior. Pilhado em algum passo
em falso, aplica fintas que nem Mané Garrincha foi capaz de incluir em seu amplo
repertório. E com muito mais credibilidade do que as tentativas de drible que
seu mais recente aliado tem repetido para tirar o pé das armadilhas dos
repórteres maledicentes e dos promotores incansáveis que vasculham as
contabilidades de suas gestões. O dono do PP já foi muitas vezes alcançado pelos
braços longos da lei, mas nessas ocasiões, até agora, escapou desse abraço
escorregando como bagre ensaboado para o amplo território da impunidade do país
da Justiça lerda e vesga. O senhor do PT lança mão de súditos que assumiram
bandalheiras que chegaram pertinho de seu gabinete palaciano e se tem saído com
habilidade de invejar Arsène Lupin, protagonista de populares folhetins
policiais. Posto diante das evidências de que, no mínimo, não ignorava o que
faziam seus auxiliares na fraude dita “mensalão”, saiu-se com a patacoada
tornada dogma de fé de que tudo não passara de “intriga da
oposição”.
É notório - e
não deixa de ser ridículo - o truque chinfrim de marketing de Maluf de se
apropriar de quase tudo o que pareça plausível de ter sido obra dele desde a
posse de Tomé de Souza como governador-geral. Lula foi adiante em esperteza e
criatividade ao criar o próprio slogan, “nunca antes na História deste País”.
Maluf sabia que nunca precisaria comprovar afirmações duvidosas. Lula construiu
o próprio mito de forma a sequer ser questionado a
respeito.
Maluf foi
beneficiário do arbítrio. E Lula tornou-se dirigente sindical atendendo ao
anseio de parte dos militares que topavam tudo para impedir a influência de
Leonel Brizola, herdeiro presuntivo do inimigo número um das casernas, Getúlio
Vargas, no aparelho sindicalista que o caudilho de São Borja forjou. Com as
greves, o esperto sobrevivente da pobreza do semiárido passou a simbolizar o
ideal do povo brasileiro cultivado pela esquerda que ganharia nas urnas a guerra
perdida na tentativa de tomar o poder com as armas. Maluf foi escorraçado dos
palácios e virou uma aposta perdida de volta da direita ao
topo.
Neste ambiente
em que governabilidade justifica barganha e pouca vergonha se confunde com
pragmatismo, Lula malufou para Maluf lular, enfurecendo os tucanos que perderam
a chance de preceder o PT no afã.
Jornalista,
escritor e editorialista do Jornal da Tarde
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