"Numa cabana, em uma floresta, nas montanhas da Colômbia, estou vomitando em um balde. Fecho meus olhos, e toda vez que meu corpo entra em convulsão, eu vejo ondulações em uma grade de hexágonos multicoloridos que fluem para as extremidades do universo." A descrição de Vaughan Bell parece típica de uma experiência com o ayahuasca – ao mesmo tempo desagradável, assustadora e luminosa.
Ayahuasca – que significa 'espírito videira' na língua indígena sulamericana Quechua –é uma bebida alucinógena de gosto desagradável, usada durante séculos por xamãs da floresta como um sacramento religioso. A infusão facilita visões místicas e revelações, e diz-se ter propriedades curativas. Até agora, há pouquíssimos estudos sobre a sua influência nas funções cerebrais. Agora, no entanto, uma equipe de pesquisadores brasileiros traz uma das primeiríssimas neuroimagens funcionais de estudos dos efeitos da droga.
A bebida fermentada ayahuasca é feita da videira videira selvagem Banisteriopsis caapi, que contém vários compostos de betacarbolina, e Psychotria viridis, um arbusto que contém o psichotrópicp dimethiltriptamina (DMT), o qual atua em tipos específicos de receptores de serotonina. Separadamente, nenhum desses ingredientes tem efeito significativo, mas quando consumidos conjuntamente, atuam em sinergia.
Betacarbolinas são potentes inibdoras da enzima monoamino oxidase, que não só impede a quebra da DMT, permitindo-lhe exercer seu efeito psichotrópico, como também contribui para os efeitos da droga, ao elevar os níveis de serotonina nas sinapses. O efeito combinado resulta numa viagem que dura até 4 horas, caracterizada por vívidas alucinações..
Draulio de Araujo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, recrutou dez usuários frequentes de ayahuasca, e fez a varredura de seus cérebros enquanto eles olhavam fotografias da natureza, imaginavam-nas com os olhos fechados, e viam versões misturadas das fotos. Em seguida, os participantes bebiam chá de infusão de ayahuasca e, quando os efeitos começavam, repetiam as mesmas tarefas enquanto seus cérebros sofriam nova varredura.
Os pesquisadores, então, compararam os padrões de atividade cerebral das varreduras feitas antes e depois de os participantes tomarem o ayahuasca. Como esperado, a visão de fotos da natureza, normais, e misturadas ativou o córtex visual primário no lobo occipital do cérebro, e várias outras áreas visuais.
Mas essas mesmas áreas se tornavam muito mais ativas quando os participantes fechavam os olhos e imaginavam as fotos após tomarem ayahuasca. Isso, no entanto, não causou grande surpresa, já que imagens estudos anteriores de neuroimagens funcionais haviam mostrado que alucinações visuais estão associadas à atividade anormal do córtex visual.
As varreduras também mostraram que as tarefas com as imagens feitas antes de os participantes tomarem ayhuasca estavam associadas à atividade aumentada no giro do parahipocampo, o qual está envolvido na recuperação de memórias autobiográficas e na codificação do conhecimento contextual; e o córtex frontopolar pré-frontal, envolvido bo processamento da memória e imagem de eventos futuros. Os pesquisadores também observaram conectividade alterada entre todas essas áreas, e especialmente no relacionamento entre os córtex frontal e occipital.
O estudo sugere que as visões induzidas pelo ayahuasca comprometem os circuitos cerebrais de memória, e que isso pode "alimentar" a atividade no córtex visual primário, o qual, por sua vez, rege a atividade de outras áreas da visão. A observação que o córtex visual primário é mais ativo durante a geração de imagens com os olhos fechados do que durante a visão de imagens reais está de acordo com inúmeros relatórios sobre quão vívidas são as visões sob efeito de ayahuasca. Acredita-se que todos esses efeitos sejam mediados pela ativação aumentada de receptores de serotonina através das regiões cerebrais envolvidas.
Este é um entre um punhado de estudos de neuroimageamento na base neural da experiência com ayahuasca. Recentemente, tem havido interesse renovado nos potenciais efeitos terapêuticos das substâncias psicodélicas, e o novo estudo contribui para a nossa compreensão de como esta classe de drogas afeta a função cerebral.

Nenhum comentário:
Postar um comentário