Antonio
Carlos Secchin propõe leitura crítica como ponto de partida do discurso
criativo
JOSÉ
NÊUMANNE
O
gosto pessoal parece ter caído de vez em desuso. Se alguém quiser ter sua
opinião respeitada num ambiente intelectual – na sala de aula ou num botequim de
esquina – não convém afirmar que gostou do filme novo de Arnaldo Jabor ou do
primeiro romance de Kathryn Stockett. Assim, correrá até o risco de perder o
respeito na roda de amigos ou de alguém impressionado com alguma citação de seu
filósofo favorito. O romance Afinidades Eletivas, de Goethe, praticamente
deixou de ser lembrado, embora não necessariamente só por causa disso. O
realismo socialista abomina o gosto, porque é uma manifestação do individualismo
burguês: György Lukács já o tornou um anátema faz tempo. A predileção não cabe
também na voga estruturalista sob Nicos Poulantzas ou Roland Barthes. Convém,
então, esclarecer logo de saída que gostei muito de Memórias de um Leitor de
Poesia, coletânea de aula, discurso acadêmico, ensaios e críticas do poeta e
professor de literatura Antonio Carlos Secchin, editada pela Topbooks. E, pior
do que isso: gostei mais porque concordo muito. E ainda: fui encontrando ao
longo da leitura pontos de apoio para velhas convicções que sempre tive e,
afinal, recebi aval acadêmico para delas continuar a
dispor.
Para
começo de conversa (ou melhor, deste texto), o autor em questão autorizou e
legitimou (da cátedra), em sua aula inaugural do ano letivo, em 15 de março de
2004, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio (UFRJ), que intitula
o livro, o desafio do dissenso. “A palavra do outro – professor, escritor –
tende a carregar-se de um paralisante poder de verdade. Ainda assim, é
importante ouvi-la – não para repeti-la, mas para iniciarmos nosso discurso a
partir do ponto onde ela se cala, e, desse modo, evitar que nos transformemos em
meros bonecos de ventríloquos do pensamento alheio”, escreveu ele. O exercício
da leitura crítica que proponho para o livro de Secchin não é por aprovação ou
aplauso, mas por reconhecimento e apropriação: a repetição pelo
avesso.
Veemência
crítica.
Acho, por exemplo, que já passou da hora de pular o muro construído pelos
modernistas para obstruir leitura, apreciação e usufruto da obra parnasiana. Em
88 anos de veemência crítica contra seus antecessores, compreensível pela
natureza rebelde do movimento, os modernistas, cultores do verso branco e do
ritmo dissoluto, fizeram tal alarde contra a poética de rimas ricas e métrica
rigorosa de seus antecessores parnasianos que terminaram por sepultá-la sem
permitir que sua contribuição gerasse frutos na produção literária herdada e
aprendida pelos pósteros.
Secchin
reconhece que o Parnasianismo “pagou o preço do próprio sucesso, na medida em
que se propagou em versões edulcoradas e anódinas, epidêmica e epidermicamente
disseminadas por todo o país. Ocorreu-lhe, assim, o que de pior pode suceder a
um estilo: ser confundido com a diluição que dele faz a multidão de epígonos”.
De idêntica praga livrou-se um dos temas favoritos do poeta, professor e
crítico, João Cabral de Melo Neto, que, tal como Augusto dos Anjos, atingiu o
ápice da glória sem contar com o apoio de devotos de igrejinhas ou de
coleguinhas de escola. Nenhum dos dois escapou, contudo, nem haveria como, da
praga dos epígonos, cuja ação é normalmente medíocre e esterilizante. A obra
singular do paraibano sobreviveu a mais de um século de declamadores
descabelados e deprimidos profissionais. A “educação pela pedra” do
pernambucano, que teve em Secchin um elogiado exegeta, ainda precisa ser salva
deste mal avassalador dos imitadores sem talento nem
graça.
O
trabalho do autor do livro aqui comentado tem o mérito de tomar água direto nas
fontes, seja para resgatar Cecília Meireles dos devotos exclusivos de suas
filigranas, seja para reconhecer em Vinicius de Morais o “maior poeta lírico da
poesia brasileira no século 20”, ou seja, um poetaço, e não o
poetinha sambista e mulherengo. Secchin pertence à estirpe de críticos
que se empenham em remover a pátina do tempo e, sobretudo, a baba dos áulicos e
a o veneno dos desafetos de ocasião para restaurar o que de bom e de útil
leitores, críticos e autores atuais podem encontrar direto nas obras, deixando
de lado esse vício bem brasileiro de folclorizar tudo: Castro Alves, o
abolicionista apaixonado; Augusto dos Anjos, o tétrico tísico; João Cabral, o
inimigo da música; Cecília Meireles, a alienada emotiva; Vinicius, o bom de
papo, pandeiro e copo. Mercê deste esforço, o leitor destas suas Memórias
encontra bons motivos para visitar o passado sem temer a alergia a ser provocada
pelo bolor.
Poeta
de talento, Secchin fez na aula, em ensaios e resenhas de cadernos literários e
no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras trabalho similar ao de
historiadores que vão direto aos documentos originais, em vez de se valerem
somente de interpretações de extintos colegas ilustres. Dissecou, por exemplo, o
lirismo de Tomás Antônio Gonzaga, árcade da Inconfidência Mineira. E
praticamente redimensionou a fortuna crítica do Romantismo brasileiro a partir
das diferenças que registrou em suas antologias. Além disso, o autor tirou de
letra o maior desafio a que se pode propor um crítico: definir poesia. “A poesia
é o lugar do imponderável, onde, portanto, até o ponderável pode acontecer. Mas
nada disso vale, se o delírio não se submeter ao imperativo da forma”, escreveu.
Amém.
MEMÓRIAS
DE UM LEITOR DE POESIA E OUTROS ENSAIOS
Autor:
Antonio Carlos Secchin
Editora:
Topbooks (273 págs., R$ 39)
José
Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e prêmio
Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras pelo romance O
Silêncio do Delator, “melhor livro” de 2004.

Nenhum comentário:
Postar um comentário