Passei anos ouvindo coisas sem saber filtrá-las. Aos poucos, muito aos poucos, fui aprendendo a pensar, mas não ainda com a isenção desejável. Faltava muito, ainda, faltava duvidar, especialmente de mim mesmo; depois, dos outros.
Alguns (muitos, na verdade) anos de análise para começar a olhar para dentro de mim e enxergar alguma coisa. Outros vários anos até que a reconstrução começasse e, depois de me entender (um pouco só, ainda), eu pudesse passar a tentar compreender os outros, os demais.
Como é difícil jogar no lixo velhos conceitos e pré-conceitos, essas pragas que tanto atravancam o entendimento entre as pessoas. Mas, aos poucos, fui limpando o meu sótão pleno de tralha acumulada ao longo de longos anos. E ainda falta tanto...
Demorou até que eu deixasse de me enganar com verdades absolutas, essas coisas terríveis que alguns veneram com a devoção dos monges. Quanta gente sofreu e morreu em nome de verdades irrefutáveis. Se não são contestáveis, são mentiras. Paradoxal, não? Mentiras são incontestáveis, mas verdades, não. Custei a aprender que as palavras pesam, e quanto! E por isso, imprescindível pesá-las antes de dizê-las. Mas nem sempre a balança do bom senso está à mão...
Tudo isso para conquistar uma migalha de compreensão, um tanto de humildade e o entendimento da verdadeira dimensão humana, grande e minúscula, eterna e fugaz.
Outro dia, numa livraria, dessas grandes, perguntei ao vendedor quantos títulos ele achava que havia ali, e a resposta foi cerca de 400 mil. Mas na outra loja, bem maior, seriam quatro vezes mais. Um milhão e seiscentos mil livros de títulos diferentes!
Ali, percebi melhor o tamanho da limitação humana, quero dizer, individualmente falando, porque coletivamente, foi possível à humanidade produzir milhões de livros sobre os mais variados assuntos. E toda a tecnologia e a ciência que hoje temos. Donde a importância da cooperação e da aceitação da diferenças inerentes a essa pluralidade humana que nos permitiu e permite tanto.
Não poderei sorver além de um átimo de todo esse conhecimento, mas isso só faz aumentar a minha sede – de entender a as pessoas, a mim mesmo. É longa a estrada e curto o tempo, essa implacável abstração humana. Os animais não percebem conscientemente o transcorrer do tempo.
Fecho a janela e o meu Neruda, ao contrário do que fazia Vinícius de Morais, que abria o seu, e apagava o Sol.
Boa noite, ou bom dia, tanto faz quando o caminho é longo e o tempo, curto. Por que curto? Por nada, mera impressão, secundada pelo fato de o universo ter bilhões de anos passados e mais alguns bilhões adelante. Para quem veio da (e voltará para) a eternidade, ou para o nada absoluto, é pouco, não acham? No fim das contas, a vida é como um texto, plástico, nunca definitivo, sempre passível de um retoque, uma edição. À vida, sempre cabe um retoque, e um retorquir. Abrir o zíper do peito, expor o coração, dói menos que engolir aflições. Os retoques à vida são o reconhecimento, a assunção de erros, a correção de rumo.
Boa noite, enfim. Pensem nas estrelas: elas são a vida; tudo veio, vem e virá delas.
Leitão da Cunha, Luiz.
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