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domingo, 27 de janeiro de 2008

História mal contada

Jérôme Kerviel, 31 anos, por pouco não quebrou o banco francês Société Générale, o Sogener, porque, na verdade, ele arriscou muito mais do que o patrimônio do banco, ao abrir posições bilionárias, arriscando inacreditáveis US$77 bilhões em mercados futuros.
A perda efetiva foi menorzinha, cerca de US$7 bilhões.
Ele foi preso na França sábado, onde virou celebridade. A uns 500 km de Paris, em Pont L'Abbé, Jérôme transformou-se em herói, especialmente entre as mulheres. Certamente um vingador, pois muita gente tem ódio dos bancos em geral, e passar a perna em um dos maiores, mesmo não obtendo lucro pessoal, é decerto uma façanha e tanto.
Várias pessoas acham que ele está sendo usado como bode expiatório, para encobrir fraudes ou perdas dos seus chefes. É o que diz uma cliente do Sogener: "os ricos e os poderosos sempre acham alguém a quem culpar". Pode até ser verdade...
O fato é que até na Internet o sujeito se tornou popular, admirado mesmo.
O que causa espanto e pode dar razão aos céticos é como um operador júnior, obscuro, poderia ter burlado todo o esquema de vigilância e a auditoria do banco, já que passou um bom tempo agindo.
Para quem não conhece, aqui vai uma breve explicação: mercados futuros são de altíssimo risco, e toda operação feita neles, compra ou venda, exige a apresentação de garantias, que podem ser cartas de fiança, depósito de ativos como ouro ou de certos títulos de crédito. Quando a cotação correspondente ao ativo que o operador comprou ou vendeu oscila, ele é obrigado a cumprir a "chamada de margem" ou pagar o valor correspondente ao chamado "ajuste diário".
Dito isto, cabe muito bem a dúvida (e o espanto): como alguém poderia abrir posições tão grandes a ponto de pôr em risco US$ 50 bilhões sem essas garantias e sem chamar a atenção de todo o mercado? Sim, porque a administração da Bolsa de Paris sabia qual era a instituição financeira que detinha tais posições em aberto, e mais, provavelmente, sabia quem eram os detentores dos contratos.
De modo que é perfeitamente possível que Jérôme seja apenas um bode expiatório. Vejamos as explicações, se houver, sobre como ele conseguiu pôr em risco US$ 77 bilhões. É verdade que ele trabalhou durante dois anos na retaguarda da mesa de operações, onde pôde aprender a a respeito dos mecanismos de segurança do banco, mas... peralá! As explicações de que ele encobria as operações são ridículas; e as garantias?
Absolutamente não colam as alegações de que Kerviel encobria suas operações com outras - fictícias -, que escondiam as verdadeiras, porque se eram fictícias no sistema do banco, não poderiam ser nos controles da Bolsa. Dizem que ele teria ganho até antes da queda dos mercados, no início de 2008 (se liquidasse as operações), mas isso não explica como ele teria arranjado garantias para abrir posições tão grandes.
Dizem os jornais que, se ele tivesse fechado as posições em 18 de janeiro, não haveria prejuízo, e mais, que, ano passado, as posições abertas por ele estariam dando um lucro de US$ 2 bilhões. Sim, e não liqüidou as operações por quê? E se as tivesse liqüidado, como retiraria tanto dinheiro? Onde iam parar os créditos dos ajustes diários, quando suas posições estavam ganhando? Se as perdas deram-se com a queda das bolsas, ele deteria, então, uma posição comprada no índice futuro. Quantos contratos? Uma história muito, muito mal contada.

Um comentário:

  1. LL, Vc me abriu os olhos. Desde o início me pareceu estranho, porque é. É inverossímel todadesta história. Ou há peixe grande, atrás de tudo isto, ou o sistema financeiro da França é uma piada. Pior se for, porque então vai dar mais um motivo p'rá recessão se instalar.
    Veja seus dois posts Desmatamento no BV (estou na corrida, e aproveito que suas flechadas são certeiras, no que mais interessa dos muitos assuntos circulando)
    Abraço, Edu
    -se navegar é preciso, então www.varejototal.zip.net

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