O filme, que fala da elite da tropa, parece um tanto maniqueísta, embora mostre coisas que acontecem nas quebradas desse Brasil. Mostra como é abjeta a tortura, mas também o lado gente dos policiais, o fato de ninguém se exaltar quando um deles é morto em ação, as pressões, no trabalho e na família, em decorrência do alto grau de estresse. O fato é que, no meio de um buraco qualquer, um tira detém um poder enorme sobre as pessoas, criminosas ou não. É preciso ter uma cabeça muito boa para não cometer injustiças e não ceder à tentação da corrupção. Naquela loucura, é difícil evitar perder a humanidade ou perder o contato com a realidade.
Vi o filme com meu filho de 16 anos. Hoje, perguntei-lhe o que achava da tortura (quando assistimos o filme, eu não defendi nem condenei, nem fiz perguntas, deixei passar uns dias) e ele disse que "com bandido não tem outro jeito". Eu argumentei que o policial que tortura uma vez acaba assumindo a prática como normal, um atalho para se poupar de investigar. Falei da guerra convencional, não-policial, e meu filho de 10, que não viu nem vai ver o filme, disse que na guerra vale tudo, algo que ele ouviu por aí, uma meia verdade clássica. Eu mencionei e expliquei a Convenção de Genebra. Disse que um torturado confessa o que não fez e, eventualmente, o que fez. O de 16, então, sacou de uma situação-limite imaginária e perfeitamente factível: Um seqüestrador é preso pela polícia, mas a vítima está em local diferente. É certo, neste caso, torturar o preso para salvar a vítima? Eu lhe disse que não tinha resposta, que ia pensar a respeito. Pergunto aqui: o que vocês acham? Imaginemos outro caso: Um terrorista tem uma bomba-relógio em algum lugar da cidade que não revela por bem. Há um prazo de poucas horas para desativá-la. Neste caso, é válido torturá-lo? Se isso não for feito, centenas de vidas serão perdidas. Claro que, enquanto isso, a polícia se desdobra, sem sucesso, para achar o dispositivo. Tortura ou segue a lei?Eu ainda não tenho resposta. É fácil imaginar as coisas, mas como reagimos numa situação-limite assim? Outra coisa: libera ou mantém a proibição das drogas? Nunca se prendeu tanta gente no tráfico, mas o movimento não caiu. Rei morto, rei posto.
Volto a este post depois de ler a Veja de 12/10. Que os usuários são os que sustentam os traficantes é um truísmo antigo. Agora, as cenas dos policiais torturando são de lascar, e se retratam a realidade, estamos perdidos. Quem apóia a tortura, também aprova Guantánamo e Abu Gharib. Há poucos dias, a Suprema Corte dos EUA rejeitou a apelação de um cidadão alemão que foi seqüestrado e torturado pela CIA. A desculpa é que o julgamento exporia segredos de Estado... Que tal os simpatizantes da barbárie se imaginarem na situação deste sujeito, torturado sem nada ter feito?
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