Publico aqui a resposta de um amigo a um texto que enviei a ele, de autoria de Demétrio Magnolli, "A heresia de Bento", que não reproduzo aqui porque não tenho autorização.Não se estranhe a diferença de grafia, que o português dele é europeu.
Luis Leitão,
Agradecido pelo artigo e pela oportunidade de tecer algumas considerações a respeito.
O Milenarismo, que teve grande relevo no discurso religioso da Idade Média, corresponde do ponto de vista psicológico a um velho arquétipo da humanidade, que a Igreja Católica há muito abandonou. As inúmeras seitas ditas evangélicas contudo mantém-no com o mesmo objectivo do Cristianismo Medievo: induzir o medo. Nesse sentido, o discurso do IPCC tem semelhanças.
O IPCC dá como adquiridas projecções matemáticas que carecem de um vasto leque de factores, alguns convenientemente desprezados para induzir o "pânico climático", como a História Natural do Planeta. Obviamente que os seus mentores têm objectivos ideológicos como tinham os cléricos medievais quando encolerizados anunciavam dos púlpitos o "Flagelo Divino". A sanha é pois idêntica. Só diferente nos meios. Hoje servem dos computadores, naquele tempo, da Bíblia, interpretando-a literalmente e descontextualizando o Apocalipse. Nesta matéria aliás, há quem continue a fazê-lo e com muitos bons resultados financeiros. Veja-se o exemplo de Edir Macedo e da sua Igreja Universal do Reino de Deus.
O "fim do mundo" está representado em todas as culturas e remonta à Suméria, a civilização mais antiga, até agora conhecida. Representa a consciência colectiva de que a acção do homem, ou dos deuses, dos quais teve origem, como alguns povos acreditavam, põe de algum modo em causa a Natureza. Historicamente isso já aconteceu e mais de que uma vez. A exploração intensiva dos solos, em resultado da monocultura, milho, por exemplo, com o arroteamento de grandes áreas de floresta, levaram e levam ao desaparecimento da biodiversidade tão indispensável à manutenção da vida no seu conjunto. O Rio de Janeiro, por exemplo, conheceu no Século XVIII falta de água quando a cultura do café subiu indiscriminadamente serra acima, destruindo a biodiversidade da Mata Atlântica. Foi necessário a replantação de espécies nativas, trazidas da Serra de Campo Grande, para repor a mata e assim os mananciais aquíferos, donde resultou a bela floresta do Alto da Boavista que hoje deslumbra os olhos de quem a visita. As culturas destinadas ao biodiesel trás no seu bojo a mesma ameaça. A decadência de Teotihuacán, "Cidade dos Deuses", durante os séculos VII e VIII, para além do assédio de povos bárbaros que sofreu, os Chichimecas, está relacionada com o problema de uma agricultura extensiva e sem rotatividade. O dilúvio biblico, que ocorreu sobretudo na Mesopotâmia, está também associado ao este problema. Aliás a saga de Abraão em busca da "terra prometida", prende-se com a escacez de pasto nessa região.
Com os conhecimentos que temos hoje, é possivel evitar esses desastres e ao mesmo tempo garantir a produção de bens alimentares suficientes ao consumo da Humanidade. Para Amartya Sen, prémio Nobel de economia de 1998, o problema da fome no mundo deriva não da escacez de alimentos, que na Europa, por exemplo, chega-se a queimar, mas de uma desigual distribuição da riqueza produzida, com o qual estamos inteiramente e acordo. Só a ganância de alguns é que faz a fome e induz problemas ambientais. Veja-se o que se passa com a acção predatória das transnacionais Monsanto, Parmalat, Unilever, Nestlé e Asda Wall-Mart, além de estarem a criar um grave problema ambiental, estão a empobrecer populações já de si pobres, com toda a sorte de desgraças, incluindo suicídios, como é o caso dos plantadores de algodão transgénico na Índia, que sem meios para honrar suas dívidas, optam por pôr termo à sua própria vida. Entretanto os solos, outrora equilibrados quando se tratava de uma agricultura biológica e que alimentavam toda uma população, estão agora contaminados e estéreis, graças às sementes transgénicas e aos pesticídas complementares, vendidos pelas multinacionais do ramo a preços exorbitantes. O Brasil pode também estar a ser vítima da mesma ganância e está.
O homem na verdade é um mau aluno de História, pelo que não aprende com o Passado. Mesmo aqueles que se empenham na Ecologia sofrem deste problema. A maioria esmagadora dos ecologistas são habitantes da cidade. Nunca pegaram numa enxada e apenas estão preocupados com a sua vidinha de pequenos burgueses com borbulhas na testa... com medo que se lhe acabem as commodities que alimentam o seu status de cidadãos urbanos. Recentemente em Portugal, alguns desses idiotas invadiram uma propriedade rural e danificaram uma cultura de milho transgénico. Serviram da pior maneira a causa que dizem defender... Há quem defenda inclusive uma tipo ecologismo próximo daquilo que podemos chamar de "nazismo ecológico", ou seja, defendem ser necessário reduzir a Humanidade a 1/3 da população actual. Aliás é a mesma tese dos senhores do Clube de Roma e congéneres. Henry Kissinger, que é um deles, é subscritor dessa tese. Então que comecem por eles próprios... No fundo, defendem uma Natureza sem o Homem, o que é um absurdo. Mais, por trás destas ideias movimentam-se grandes interesses económicos, dos quais são consciente ou inconscientemente porta-vozes. Veja-se o que se passa com a Amazónia, onde a oligarquia mundial tem "olho grande" e desde há muito, no manancial de riquezas que tem o seu subsolo. No Século XIX, exploradores norte-americanos, na qualidade de missionários protestantes, pseudo apóstolos de Cristo, já anotavam as potencialidades naturais e económicas do Império Verde, que é o Amazonas. Infelizmente o Governo de Lula, bem como os anteriores, tem fechado os olhos à ameaça real que representa o conceito da "Internacionalização da Amazónia", que alguns brasileiros até apoiam.
O problema do clima sempre se colocou à Humanidade. Não é pois coisa de hoje, como a mídia, ao serviço dos grandes interesses económicos, procura fazer crer. E assim é, por que as leis da Natureza são independentes dos interesses dos homens. Deus já nos deu a inteligência para sabermos nos prevenir dos seus "malefícios". Ponho entre comas, porque a Natureza é neutra.
A História Natural está repleta de catástrofes, algumas superiores às que hoje enchem até à exaustão as páginas dos jornais, induzindo um sentimento apocalíptico nas populações incautas e ignorantes. Uma coisa é formar uma consciência ecológica, que sempre foi necessário desde que o homem é homem, outra é manobrar a opinião pública para aceitar soluções de "prato feito" com objectivos meramente económicos. E é isso que se passa no que se refere às alterações climáticas por efeito antropogénico.
Em Portugal, por exemplo, o negócio das energias alternativas, nomeadamente a eólica, é liderado por um "entranhado" ecologista, Dr. Carlos Pimenta, que aqui há uns anos brandia quixotescas e inflamadas denúncias contra a poluição industrial. Mas agora não se importa que as suas enormes ventoinhas causem um impacto visual anormal na paisagem rústica do país, nem que as mesmas na sua fabricação produzam CO2 e outros químicos poluentes. Entretanto, para tornar o negócio "sustentável", que o investimento é alto, aumentam-se as tarifas da energia convencional para que o cidadão, que mora encaixotado nas grandes urbes de Lisboa e Porto, pague o empreendimento eólico. E tudo é feito à pála dos problemas do clima e da escacez do Petróleo. Depois é só ver os lucros do sector a aumentar... Não haverá outras alternativas? Quando é assim, como não desconfiar dos ecologistas de pacotilha?
Nesta questão da protecção da Natureza, a Igreja, como comunidade de milhões de cristãos, que também são cidadãos, não pode abster-se. Pode e deve intervir com a autoridade que lhe advém do facto de constituir a mais antiga instituição do Mundo Ocidental, pese os seus erros. Nesse sentido, parece-me bem que o Papa conclame os cristãos para o cuidado com o Planeta e não vejo nisso uma heresia. Se não o fizesse é que estaria a cometer um pecado, o de omissão. Não vejo pois qualquer contradição entre Fé e a defesa do ambiente. Agora não podemos é ir na cantiga dos profetas do "Pânico Climático".
Abraços sinceros.
Artur Teixeira
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