Quem gosta de astronomia sabe que o Universo tem cerca de 13,4 bilhões de anos, e certamente apreciaria ver como eram as coisas nestes tempos remotos. Agora, num laboratório em Oxfordshire, Inglaterra, cientistas estão ao ponto de terminar a construção da mais cara câmera fotográfica jamais vista. Não é, decerto, um instrumento qualquer: quando começar a funcionar, ao final deste ano, a engenhoca de 40 milhões de libras esterlinas será o protótipo da câmera principal que equipará o sucessor do telescópio espacial Hubble. Nos próximos meses, o Instrumento de Infravermelho de Médio Alcance (MIRI) será submetido a testes preparatórios de uma missão cujo objetivo é encontrar a tênue luz que vem das primeiras estrelas formadas após o Big-Bang, há cerca de 14 bilhões de anos (nosso Sol tem 5 bilhões de anos).
O Miri será a peça principal do novíssimo telescópio espacial James Webb (em homenagem a James Edwin Webb, o segundo diretor da NASA), de 6,5 toneladas, o próximo de uma série de grandes observatórios, nos quais se incluem os telescópios Hubble e o Spitzer, planejados pela NASA em conjunto com a Agência Espacial Européia. Após o seu lançamento, em 2013, ele irá investigar a origem e a evolução de galáxias, estrelas e planetas, examinará toda a história do Universo, desde as posições das primeiras estrelas até os planetas mais longínquos, em busca de sinais de vida. Uma de suas primeiras tarefas será aprofundar as novas teorias cosmológicas lançadas pelo Hubble durante seus dez anos de serviços. Uma das mais famosas fotografias do Hubble, o Profundo Campo Hubble contém imagens de milhares de galáxias, muitas de um universo primordial, nunca antes vistas. Ela foi feita apontando-se o Hubble para o mesmo ponto do Universo durante onze dias seguidos, e as informações obtidas ajudaram os cientistas a formular novas hipóteses sobre como as galáxias se formaram no começo do universo. "Agora, para testarmos essas teorias, precisamos poder olhar mais além para o passado, necessitamos poder enxergar mais longe galáxias com luz mais tênue, o que significa que precisamos de um telescópio maior", disse Gilliant Wright, o chefe do projeto de construção do protótipo do MIRI no Centro de Astronomia e Tecnologia do Reino Unido, em Edinburgh. Com o protótipo, os cientistas poderão melhorar seus desenhos (designs) e descobrir como a câmera irá funcionar no espaço, antes de construir o instrumento que será finalmente ajustado para o James Webb. O MIRI, a principal contribuição britânica para o projeto, permitirá que o James Webb perscrute mais profundamente o universo do que o Hubble jamais conseguiu. O MIRI será tão sensível que as coisas que hoje vemos na freqüência de luz infravermelha, que são as mais tênues que conseguimos enxergar, aparecerão, na verdade, quase tão intensamente brilhantes que mal poderemos focalizá-las com nossas câmeras comuns. O James Webb será muito mais sensível do que o Hubble graças a uma área de coleta de imagens muito maior. Enquanto o Hubble tem um espelho de 2,5 metros de diâmetro, o refletor principal do Webb será composto por 18 segmentos hexagonais que se moverão, formando um espelho de 6 metros quando o satélite estiver adequadamente posicionado no espaço, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra.
O observatório estudará a luz na porção infravermelha do espectro eletromagnético, porque esta freqüência de onda consegue penetrar nas vastas nuvens de poeira que preenchem o espaço entre as estrelas. A chamada luz visível é distorcida pela poeira e não consegue viajar tão longe, obscurecendo as estrelas mais distantes. Para que as medições extremamente pequenas dessas estrelas não sejam contaminadas pela radiação do Sol, da Lua e da própria Terra, o observatório inteiro será protegido por um escudo metálico de forma que permanca sempre na baixíssima temperatura de -220 ºC. Um escudo, como um pára-sol, bloqueará a luz das estrelas distantes, de maneira que os planetas que as orbitam possam ser vistos mais facilmente. Com a luz estelar bloqueada, o James Webb poderá usar seus instrumentos para analizar os elementos químicos presentes nos planetas, inclusive naqueles com boas perspectivas de abrigar vida, os que contém oxigênio e água.
AS GRANDES FAÇANHAS DO HUBBLE
As maiores façanhas do Hubble foram duas fotografias chamadas Hubble Deep Field (campo profundo) e Hubble Ultra Deep Field (campo ultra profundo). A primeira foi tirada fotografando o mesmo ponto do espaço na Ursa Maior durante 10 dias; a segunda foi tirada de um pequeno trecho do aglomerado Fornax durante 11 dias. As imagens revelaram galaxias situadas a milhões de anos-luz de distância, abrindo uma das melhores janelas através das quais já se viu os primórdios do universo. O Ultra Deep Field é a mais sensível imagem astronômica já faita com o emprego da luz visível. Uma das principais missões do Hubble foi medir a distância entre as estrelas chamadas Cefeidas mais acuradamente do que nunca. Isto permitiu a melhor aproximação já conseguida da Constante de Hubble, que mede a velocidade de expansão do universo. O Hubble também ajudou os cientistas a descobrir que o universo pode estar se expandindo a a um ritmo que aumenta continuamente, mais do que se desacelera sob a influência da gravidade, como eles supunham. De qualquer forma, ainda não se sabe por que isso acontece. Sempre se suspeitou que os buracos negros se situavam no centro das galáxias, e medidas feitas pelo Hubble provaram isto, em conjunto com o fato de que o tamanho de um buraco negro determina várias propriedades de uma galáxia. Outras importantes descobertas incluem planetas extra-solares. o Hubble também encontrou discos de fragmentos que poderão, um dia, virar planetas em órbita de estrelas da nebulosa de Orion.
Fonte: The Guardian * Tradução e adaptação de Luiz Leitão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário