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quinta-feira, 26 de julho de 2007

A fala dos idiotas

Eduardo Martins é uma cara bacana; autor do Manual de Redação e Estilo, combate o mau uso da língua portuguesa e ensina a escrever com elegância e objetividade. pena que seus conselhos não sejam seguido nem mesmo na redação do Estadão. Nas páginas do grande jornal paulista é comum o leitor encontrar a ocorrência de tautologia (redundância de significado). " Seu próprio"; "um único", além de termos ridículos como "inicializar" (por que não iniciar, começar?); "visualizar" (ver, enxergar); além de modismos horrorosos como "focar". O Manual de Redação e Estilo do Estadão é leitura obrigatória para quem quer escrever bem o português. Deveria ser leitura de cabeceira dos editores daquele jornal.
Já se escreveram muitas obras e artigos no Brasil para alertar os profissionais do setor em relação ao hermetismo da linguagem administrativa e o recurso quase ilimitado ao jargão. A novidade agora é que se trata de um livro americano, de autoria de Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky, com o subtítulo muito sugestivo de Um guia de combate à embromação. A Deloitte Consulting, com sede em Nova York, admite que contribuiu para difundir termos como sinergia, paradigma e repositório extensível. Ao fazer a autocrítica, um dos autores do livro e sócio da Deloitte, Brian Fugere, não deixa de usar a linguagem cifrada do administrês: "Estamos fartos do capital intelectual redirecionável de valor agregado e a mindshare robusta e alavancável". Além da linguagem empolada, o jargão mereceu a atenção especial dos autores. E, num "concurso sério de besteiras", eles arrolam alguns dos mais caros ao setor: É preciso provocar uma mudança de paradigma voltada para resultados. E, se a empresa é um centro de excelência, ela promove o melhor da espécie, sem atrito. Mais adiante, o livro fornece um guia para rastrear a embromação. E os jargões se sucedem: à prova de futuro, agente de transformação, alavancar, arriscar a pele, plano de avanço, base de conhecimento, contenção fásica (!), cumprir o prometido (é o mínimo...), descarga cerebral, desintermediar, escalonabilidade, estimativa adivinhada, fechar o circuito, foco no cliente (em quem mais seria?), infomediário, item de ação (tarefa), mobilizador primário, plano de jogo, produtizar (!), programa mental, reinventar a roda e transferência de capacitação. Engana-se, porém, quem imagina que se trate de problema exclusivo dos Estados Unidos. O Brasil, para dizer a verdade, nada fica a dever. Por exemplo, sem nenhuma explicação, se afirma que fulano de tal é o CEO de uma empresa. A sigla, que significa "chief executive officer", designa o executivo com mais alta qualificação numa corporação. Empresas brasileiras, como a Gerdau e Vale do Rio Doce, só para citar duas, já se preocupam em tornar seus comunicados internos mais compreensíveis para todo tipo de funcionário do grupo. O objetivo, logicamente, é aumentar a eficiência e a produtividade dos empregados. Mesmo na área do governo, existem ações nesse sentido. O Manual de Redação da Presidência da República, já citado nesta coluna, recomenda que não se escreva em burocratês, braço oficial do administrês. E cita um exemplo a ser evitado a todo custo: "O quadro normativo prefigura a superação de cada obstáculo e/ou resistência passiva sem prejudicar o atual nível das contribuições, não assumindo nunca como implícito, no contexto de um sistema integrado, um indispensável salto de qualidade". Eduardo Martins, jornalista, é autor do Manual de Redação e Estilo, de O Estado de S. Paulo, do livro Com Todas as Letras – O Português Simplificado e Uso do Hífen, além dos Resumões de Língua Portuguesa.

Um comentário:

  1. vamos estar fazendo um workshop para discutir um case depois do brunch coletivo. eh eh

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